
Dercy Gonçalves foi um símbolo de dignidade e respeito. E falava muito palavrão.
Betinho, o idealizador da Campanha da Fome, foi um símbolo de dignidade e respeito. E adorava uma cervejinha.
Em pleno 2009, palavrão e cerveja são demonizados como se fossem as causas da miséria, da corrupção e até mesmo da unha encravada. Como se dizia antigamente, mas que caretice!
Recentemente, fiquei chateado com a crucificação de Ronaldo por fazer propaganda da cerveja Brahma. Um colunista da Folha, o meu amigo José Roberto Torero, chegou a acusá-lo de fazer uma ligação pecaminosa entre “cerveja e futebol”. Ora, meu caro Torero, será que vou ter que contar pros seus leitores das louras geladas que já tomamos juntos vendo nosso Santos brilhar nos gramados?
Pelamordedeus, gente! Os tempos já são difíceis, recheados de hipocrisia e confusão galopantes… será que precisamos contribuir para esta fogueira de paranóias demonizando o palavrão e a cervejinha no futebol?
Já estava desanimando, quando hoje, aparece o romântico Xico Sá, com sua pena afiada para jogar luz nas trevas da caretice desenfreada. Com muito jeito e elegância, Xico aborda o episódio dos palavrões e “sexualidades” (ó, a sexualidade nos livros, vamos queimar tudo: Plínio Marcos, Nelson Rodrigues e até Shakespeare…) no livro adotado pela Secretaria da Educação de São Paulo.
Pensa-se a escola com a mesma cabeça do tempo que o professor era a ÚNICA fonte de informação dos alunos. Assim, é atribuído ao livrinho de quadrinhos poderes destruidores. Como se fosse ele, não o eterno blablablá dos políticos e o raquítico estado da Educação no país, o responsável pela criação de uma nova geração de deliquentes.
Discernimento, gente, discernimento! Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!
Caretas de plantão: vão pentear macacos! Puta que pariu, gente! Quem nunca falou um palavrãzinho na vida que atire a primeira pedra, caralho!
😉
E agora não deixem de ler a preciosidade de Xico Sá, publicada hoje na Folha de S. Paulo.
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XICO SÁ
Quem tem medo de palavrão?
| Ele é uma bênção no futebol, na literatura, na topada, no desafogo, no pânico, no trânsito de SP. E na cama |
AMIGO TORCEDOR , amigo secador, em uma ida ao campo de futebol o homem diz mais palavrões do que nos gritos e sussurros de alcova durante a sua vida inteira. Não é diferente no sofá de casa, e o mesmo acontece com os técnicos, os digníssimos professores, e com os boleiros, mesmo os santinhos do pau oco e os sonsos atletas de Cristo.
Em uma pelada, mesmo de criança, fala-se mais palavrões do que na última casa de tolerância da Vila Mimosa. Como me disse uma noite a Tia Olga, madame responsável pela iniciação sexual de muitos garotos de São Paulo, todo homem ao chegar ao baixo meretrício ganha ar solene, circunspecto, grave, respeitoso. É no futebol que a criatura, antes da chamada fase oral canibalística, manifesta-se um marquês de Sade.
As histórias em quadrinhos do livro “Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol” (ed. Via Lettera) são fichinhas, café pequeno, Zibia Gasparetto, padre Zezinho, uma Bíblia diante de um menino de nove anos e sua turma atrás da bola. Cito o tal livro devido à sua adoção seguida de banimento em escolas estaduais paulistas, como vimos nesta Folha. Não julgo quem o acolheu nem quem o demonizou. Não tenho ciência pedagógica para a valiosa tarefa, mas duvido de que o referido conteúdo fosse espantar alguém que já bateu uma pelada.
Sim, pode ser inadequado, no sentido moral e cívico, para a faixa etária do ensino básico, mas a gurizada iria se divertir e se interessar mais pela leitura do que sob a palmatória da chatice bilaquiana ou alencarina. “Última flor do Lácio, inculta e bela,/ És, a um tempo, esplendor e sepultura;/ Ouro nativo, que na ganga impura/ A bruta mina entre os cascalhos vela…” E dá-lhe Bilac na rapaziada.
Aqui em casa eu prefiro o time que contou as inocentes historinhas do “Dez na Área”: Allan Sieber, Caco Galhardo, Custódio, Fábio Moon e Gabriel Ba, Fabio Zimbres, Lelis, Leonardo, Maringoni, Osvaldo Pavanelli e Emílio, Samuel Casal e Spacca. Tem ainda o Karmo, na posição de gandula.
Noves fora o quiprocó pedagógico, é mesmo um belo livro sobre futebol. Como diz o genial Tostão no prefácio: “Faltava uma obra como essa para crianças e adultos”. A maldade do palavrão está na cabeça de quem o condena. O palavrão é bênção divina no futebol, na literatura, no desafogo, na topada, no pânico, no trânsito. E na cama.
Agora lembrei de uma fala de Ronaldo na sabatina da Folha. “Ele [Ronald] é uma criança doce, que não fala palavrão, é educado. É praticamente um europeu”, disse ele, sobre o filho que vive na Europa. Mal sabe o Fenômeno que o acervo de palavras cabeludas de muitos países de lá é infinitamente mais rico do que o nosso, como lembra o sociólogo Gilberto Freyre no prefácio do “Dicionário do Palavrão”, obra do pernambucano Mário Souto Maior (ed. Record).
A versão alemã de livro do gênero, que inspirou a edição brasileira, tem 9.000 verbetes. O volume nacional ficou em um terço dessa maçaroca. Na França e na Espanha, puta madre, nem se fala. Coisa de botar no chinelo a “Mesa-redonda sexo-futebol debate!”, a sensacional história narrada pelo Caco Galhardo que fecha o “Dez na Área…”.
Escrito por Marcelo Tas às 18h33