
Fui uma vez ao programa de entrevistas do Clodovil. Língua ferina, tentou me espetar de cara: você não fica chateado de todo mundo te confundir com o Ernesto Varela? Rebati: nem todo mundo, só os com mais idade. Os jovens me conhecem como Professor Tibúrcio…
Ele sentiu o golpe, mas demonstrou fair play, gostou de ser provocado. A entrevista foi elétrica como devem ser as entrevistas. Antes de terminar, não perdi a chance de dizer o que pensava dele, ao vivo, em rede nacional: você é um dos mais habilidosos comunicadores do país. Sabe como poucos falar com a câmera. E o que é melhor: não deixa ninguém perceber essa sua virtude. Finge que isso é pouco.
Não dá para dizer que ficamos amigos. Aliás, não acredito que Clodovil tenha cultivado amizades ao longo da vida. Mas, inegavelmente, apesar dos chiliques, era um homem bom. Em todas vezes em que nos encontramos, foi gentil e elegante. A última, num inusitado posto de gasolina na rodovia Ayrton Senna. Ele, descendo para a praia com amigos. Eu, subindo para a montanha com a família. Brincou com as crianças, sugeriu o que dava para comer na lanchonete congestionada de gente, com seu jeito debochado, bem-humorado e crítico.
Foi corajoso e generoso ao se expor e se impor como homossexual no país machista, ignorante e preconceituoso que vivemos. Que vá em paz, Clô.
Foto: AE
Escrito por Marcelo Tas às 17h08