Participei há pouco do Bate-papo UOL, um chat com cerca de 3,5 mil pessoas. Esse tipo de entrevista é legal porque tem perguntadores e timing diferentes. A gente acaba falando coisas que nunca fala numa entrevista normal de TV. Um momento que resistia a sair da minha mente, agitada pela eletricidade da conversa foi aquele onde, provocado por uma internauta que me perguntou por que não existem mais séries infantis como o “Rá-Tim-Bum”, dei uma resposta longa demonstrando minha indignação com o descaso com as TVs públicas no Brasil.
Basicamente, disse que hoje há dezenas, senão centenas de emissoras utilizando o dinheiro público, que vão da TV Cultura de S. Paulo- o embrião dessa idéia- até as famigeradas TVs Assembléias ou TV Camaras espalhadas pelo pais; mas pouquíssimas, para não falar nenhuma, usa bem e na direção adequada os recursos. Um exemplo gritante são as dezenas de programas nas TVs Senado da vida sobre balet, filosofia, esportes… realizados por oportunistas que não tem nada a ver com o metier ou compromisso com TV de qualidade.
E vejam bem: nem cheguei a discutir o mérito da existencia ou não da TV Brasil, mais conhecida como “TV do Lula”. Apenas esclareci minha posição, amplamente favorável a se investir numa TV pública de qualidade no país. No entanto, notava que o que eu via eram dezenas de iniciativas eleitoreiras, senão apenas raquíticas, atirando porcaria para todos os lados. Ao invés de novos Rá-Tim-Buns ou programação de qualidade, sobram baboseiras e disputa pelo poder político. Uma mesquinharia sem fim que não tem nada a ver com o a função primordial da TV Pública: : atender o público- que é quem paga por essa gente irresponsável brincando de “fazer TV”.
Precisamente as 17h53, cai na minha caixa postal mensagem enviada pelo jornalista Israel do Vale, ex-Gerente de Conteúdo da TV Brasil (publicada abaixo). Conheço Israel desde 2006, quando ambos cobrimos o carnaval do Recife. Ele para a Folha de S. Paulo, eu para o UOL. Trata-se de figura batalhadora, doce e sensível, ligado à música, assunto que ele acompanha há anos por vários veículos onde já trabalhou e em seu blog Futuro da Música. Israel também se tornou conhecido por ser o animador cultural de um baile, se é que os frequentadores do Sambacana me permitem essa designação antiga, que recuperou um importante marco arquitetonico da cidade: o Edifício Copan- onde a balada dançante acontece sazonalmente, sempre com grande sucesso.
A carta abaixo de Israel do Vale é auto-explicativa. Uma prova cabal da situação de total descontrole e falta de rumo que vive a TV pública no país. Expõe um caso exemplar do desperdício de talento e recursos. Uma fotografia preocupante do estado de letargia e abandono que vive a Cultura e a Educação no país.
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Amigos e pessoas queridas,
Escrevo desta vez por um motivo menos festivo, para convidá-los [sim!] a uma expedição pelo não-projeto de TV pública deste país, do qual acabo de me desligar.
A TV BRASIL é, mais que necessária, imprescindível para uma nova lógica do que possa ser uma televisão comprometida com a sociedade. mas do jeito que vai, tristemente, não chegará a lugar algum.
É um patrimônio de todos nós, envolto em muitas complexidades e submetido hoje [ou melhor: desde sempre] a uma guerra interna e uma incapacidade administrativa [mas não só…] que a imobilizam –e que, apenas para ilustrar, refletem-se no fato de que, no meio do ano passado [em pleno processo de implantação da TV digital no Brasil…], apenas 7% do orçamento [até então, de R$ 350 milhões…] haviam sido gastos.
Meus relatos pretendem trazer à tona o que vi e vivi ao longo de um ano e três meses, na condição de gerente-executivo de conteúdo, como forma de [quem sabe] contribuir para um projeto de televisão pública de que se possa ter orgulho.
Do jeito que é hoje, com o comando que tem [por mais que haja ali pessoas de trajetória respeitável, embora inadequadas para o que fazem], este projeto não é digno da importância que deveria ter.
Por um motivo prosaico: não tem foco, rumo, conceito ou propósito [que não seja fazer média com amigos ou lotear espaços, mediado pela politicagem mais barata, de alpinistas do serviço público, mais preocupados com seus próximos postos que com aquilo que fazem no momento].
Manifestem-se, esparramem este alerta [alô ouvidor! alô conselho curador! alô ministério público! toc, toc, toc!!! tem alguém aí?] e contribuam para que o debate possa nos levar a uma TV pública que realmente faça diferença, em favor das pessoas que a vêem, e não de uma nova safra de oportunistas de plantão.
Em suma, entrem e fiquem à vontade [inclusive para discordar].
Aquele abraço,
Escrito por Marcelo Tas às 18h05