A ansiedade pelo pontapé inicial no principal palco da Flip, a tenda dos autores, era visível. O tema do evento é Machado de Assis, homenageado pela efeméride de 100 anos de sua morte. Diante do microfone, Roberto Schwarz, o conferencista, o principal e também mais recluso especialista brasileiro na obra do “bruxo do Cosme Velho”.
A ansiedade se transformou em constrangimento. Roberto, como esperado, preparou-se como um atleta olímpico para a tarefa. Só que na hora de enfrentar a platéia, ao invés de encará-la de peito aberto optou por ler um texto durante longuíssimos 30 minutos.
Texto impecável, diga-se. Mas a força de comunicação de Roberto estava aprisionada na sua leitura titubeante ao trocar de página e criar longas pausas para intermináveis goles num copo dágua.
Mas, aos quarenta e cinco do segundo tempo, Roberto virou o jogo na hora de responder as perguntas da platéia. A cada intervenção, iluminava os temas submetidos com fluidez e elegância. E fez cair várias fichas do entendimento do Brasil. De como o patriarcalismo rural, do sinhô e sinhazinha, ainda presente na “mudernidade” brasileira, foi amplamente radiografado pelos personagens de Machado. Que a tática de viver à sombra do poder é bem antiga. Uma espécie de DNA ainda não decifrado da antropologia verde-amarela. A do capataz, cupincha, agregado… e outros substantivos que caracterizam não apenas uma forma de vida, como também vários personagens da novela política atual.
Schwarz nos levou pela mão e fez ver com clareza a atualidade e irreverência ousada do escritor. Como a crítica impiedosa e venenosa embutida em Dom Casmurro a José de Alencar, que ajudou Machado no início da carreira.
Se Roberto exagera em ampliar o ponto de vista progressista, digamos “de esquerda”, de Machado, a ponto de às vezes tentar nos fazer crer que o romancista era uma espécie de Stédile do MST no século 19, seguramente o crítico lança uma visão inusitada e abundante de discernimento sobre a eletrizante história chamada História do Brasil.
Depois do começo de jogo embolado, preso ao papel, Roberto ganhou a platéia na prorrogação. Aí deu um baile.

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Escrito por Marcelo Tas às 11h49