
Oh, céus, não é possível que vai acontecer mais uma vez… Sim, aconteceu. Estávamos gravando na Praça da Paz Celestial, célebre palco da repressão chinesa a estudantes em 1989. O guardinha falou no radinho. Apareceram outros guardinhas. Finalmente um guardão gigante, com um radinho que parecia ainda maior que os dos seus coleguinhas. E pimba: você aí, repórter com essa ferramenta contra-revolucionária na mão, o microfone, teje preso!
Já havia visto esse filme duas vezes: em Cuba e depois na falecida União Soviética. Na ilha de Fidel, um policial não gostou da entrevista que fazia com um garoto que sabia imitar Michael Jackson. Em São Petersburgo, a própria tradutora (traidora!) nos entregou para uns soldadinhos a quem pretendíamos perguntar candidamente: qual a próxima revolução soviética? Azar o deles que não queriam ouvir a pergunta que na verdade era um alerta. Poucos anos depois, o partido e a URSS veio abaixo. Portanto completei a tríplice aliança, garotada: sofri na pele a repressão à liberdade de expressão na Rússia, em Cuba e agora na China.
Antes que alguém tente dizer que há cerceamento à liberdade de expressão em todo lugar, incluindo o Brasil, confirmo. Sim, a rigor, não existe liberdade absoluta de expressão em lugar algum. Mas não há comparação entre o controle existente em Cuba e na China, com a liberdade de expressão, conquistada a duras penas é bom lembrar, aqui no patropi. Além da pluralidade de veículos, de todos os tamanhos e paladares, resta ainda possibilidade do próprio cidadão publicar tudo, por conta própria, na internet.
Na China, isso é impossível. Tentam controlar o incontrolável: blogs, o Google e até a Wikipedia. Para não falar do site da BBC, que é totalmente fechado e casos ainda mais doentes, como a revista The Economist, que invariavelmente, como no mes passado, foi às bancas em Pequim, com uma de suas páginas arrancada! Sim, os censores chineses se deram ao trabalho de arrancar, uma a uma, a página da revista que não lhes agradou. Muito feio para uma cidade que se prepara a tanto tempo para ser a capital dos próximos jogos olímpicos, além de centro cosmopolita do próximo império econômico mundial.
Não posso deixar de comentar aqui a melancólica despedida de Fidel, infelizmente decisão tomada um pouco tarde. Antes tarde do que mais tarde, é claro, Mas vai muito tarde. Ficou no poder literalmente até não mais aguentar. Depois de libertar Cuba das garras dos norte-americanos que usavam e abusavam da ilha como uma espécie de bordel no Caribe, não soube libertar Cuba de sua própria mão pesada. Matou e censurou quem não compartilhava de suas idéias. Centralizou o poder de uma forma tão radical que não criou uma cultura política que fosse capaz de indicar um sucessor. Melancolicamente é substituído pelo próprio irmão. Visivelmente encabulado pela sombra e sina soturna de ser o irmão mais burro de Fidel Castro. É evidente.
Well, de minha parte, resta-me apenas pedir a papai do céu, que esta, a experiência com o soldadão chinês na Praça da Paz Celestial seja minha última experiência de uma quase prisão num país “comunista”. Completei minha tríplice aliança, meu Grand Slam: Cuba, Rússia e China. Espero que agora, os vermelhos, maus leitores de Karl Marx, me deixem trabalhar em liberdade. E que descansem em paz.
Foto: Ivana Angioni
PS: o simpático china da foto acima não é evidentemente o policial que nos impediu de gravar em Tianamem; mas um dos integrantes do exército de 3 mil flanelinhas, que tentam, sem sucesso, disciplinar carros e pedestres no trânsito caótico de Pequim. Mais informações sobre esse e outros assuntos na série de reportagens que a editoria de Esportes publica em Março, aqui no UOL.
Escrito por Marcelo Tas às 08h18