
Inocêncio de Oliveira é o atual Corregedor da Câmara dos Deputados. Antes de ser alçado a tal posto, Inocêncio foi militante da Arena, partido que apoiava a ditadura militar. Com a chegada da democracia, para continuar surfando no poder, Inocêncio e sua turma (que incluía o surfista de bigode Zé Sarney) saíram da Arena e fundaram o PFL, frente que embarcou na onda de Tancredo. O PFL virou Democratas. Inocêncio passou para o PMDB, que foi seu último reduto antes dele se aboletar no PR, Partido da República. Sim, aquele mesmo liderado por Valdemar da Costa Neto, o homem da mala e da ex-mulher raivosa do escândalo do mensalão.
Além desse zigue zague ideológico nada louvável, Inocêncio tem no currículum algumas manchinhas difíceis de esquecer. Vou puxá-las para vocês pela memória implacável da Internet.
Nascido em família modesta, como informa o site de Serra Talhada, terra natal dele, Inocêncio prosperou como um autêntico Bill Gates do sertão desde que entrou para a política. Segundo reportagem da Isto É, possui concessionárias de motos e automóveis, três rádios no interior, uma televisão em Caruaru, além de 6,2 mil hectares de fazendas de gado no Maranhão e em Pernambuco. Apesar da abundância de recursos amealhados na carreira, Inocêncio foi pego de calças curtas pelo menos duas vezes: ao usar incentivos federais do DENOCS- fundo para os miseráveis da seca nordestina- para perfurar poços artesianos em suas fazendas majestosas. O assunto foi tema de ensaio precioso de Roberto Pompeu de Toledo, em 98 na Veja, texto que deveria estar nos livros didáticos de História do Brasil.
Mais tarde foi condenado pelo TRT- Tribunal Reginal do Trabalho- do Maranhão e denunciado ao Supremo Tribunal Federal pelo então procurador-geral da República Cláudio Fonteles (inquérito 2054) pelo crime de aliciamento de trabalhadores e redução deles à condição de escravos. O fato acontecido na fazenda Caraíbas foi amplamente registrado pela mídia, como registra o portal Forum de Entidades Nacionais de Direitos Humanos. Estamos falando do distantíssimo ano de 2002. Inocêncio foi julgado e condenado. Mas, sacumé, né? Conversa vai conversa vem… no ano de 2006, o processo foi arquivado pelo STF. Inocêncio virou inocente através de hábil argumentação do seu advogado João Agripino, que coroou seu feito com uma frase lapidar: “Os desembargadores reconheceram que não havia trabalho escravo, mas sim trabalho degradante, figura não prevista na legislação trabalhista.”
E chegamos a 2008. O mesmo Inocêncio, mais bronzeado e vistoso (passou por cirurgia plástica no nariz e cursinho para curar a gagueira que o perseguia implacavelmente), aparece lépido e fagueiro para as câmeras na tarde de ontem com os papéis na mão para a abertura de processo contra o deputado Paulinho da Força por quebra de decoro parlamentar.
Quando precisamos de um Inocêncio para dizer que Paulinho é culpado, fica a certeza de que o Congresso Nacional poderia até ser melhor. Mas seria pedir demais.
Nem vamos gastar tempo com isso, gente. Tenho absoluta certeza: Paulinho é Inocêncio!
Escrito por Marcelo Tas às 09h52