Em Fevereiro de 2005, a freira norte-americana naturalizada brasileira Dorothy Stang foi assassinada barbaramente, seis tiros à queima roupa, em Anapu, no Pará.
Anapu nasceu com o desmatamento realizado para a abertura da rodovia Transamazônica, marco cultural da ditadura militar, iniciozinho dos anos 70, obra do PIN- Programa de Integração Nacional.
O PIN assim como o PAC- Programa de Aceleração do Crescimento- visava acordar o gigante adormecido à pauladas. Por pauladas, leia-se bilhões de dólares jogados numa região sem cultura de mercado, sem cultura industrial, sem cultura escolar… Mas não sem cultura alguma, diga-se. Ali vive alguém dono de um conhecimento abundante e riquíssimo sobre a vida na região: o caboclo. Um cara que conhece a natureza e sabe o tempo que se leva para fazer as coisas direito, sob o sol à pino equatorial, na maior floresta do planneta. Mas o caboclo é apenas um detalhe esquecido dessa história. Voltemos ao papo da aceleração.
Nos anos 90, foi injetada outra paulada de dólares, U$ 1,4 bilhão, para a construção do SIVAM- Sistema de Vigilância da Amazônia. Uma verdadeira muralha da China eletrônica, 10 mil metros de altura, 25 radares, 6 deles móveis, 120 torres físicas de observação. Tudo para controlar o espaço aéreo, as agressões ambientais e apoiar as pesquisas científicas na região. Passada a euforia da obra, da dotação anual no orçamento da União, uma mixaria de R$ 41,7 milhões comparada com o investimento, nem 10% havia sido liberada até meados do ano fiscal 2007. Os serviços do SIVAM se “derreteram”, como informava artigo do especialista em armas e segurança estratégica Roberto Godoy, no Estadão.
Zapeada para a Folha de hoje: a coluna de Renata Lo Prete informa que dos R$ 17,2 bi autorizados pelo PAC este ano, pouco mais de 10% foi empenhado e míseros R$ 13,7 milhões efetivamente pagos.
Na mesma página ali ao lado, a foto com o rosto perplexo de David, irmão de Dorothy Stang, a freira barbaramente assassinada, seis tiros à queima roupa, por um rapaz chamado Rayfran das Neves, vulgo Fogoió.
Fogoió me parece um apelido onomatopéico. Talvez uma mistura de fogo com o barulho dos gritos guturais da floresta que não entende a pressa dos PACs, PINs e SIVAMs.
Ontem, por cinco votos a dois, o Tribunal do Júri de Belém absolveu o suposto mandante do crime, um fazendeiro da região, entusiasta das promessas do PIN-SIMVAM-PAC, de nome Vitalmiro Bastos de Moura, vulgo Bida.
Por seu lado, Rayfran Fogoió que já havia confessado ter atirado em Dorothy, mas livrado a cara de Bida, foi condenado a 28 anos de prisão.
Bida e David, irmão de Dorothy que veio de Palm Lake dos EUA para acompanhar o júri, devem estar perplexos. Sem entender o desfecho do caso Dorothy. E provavelmente dos casos PIN, SIVAM e da reserva Raposa do Sol.
Definivamente, maestro Tom Jobim, o Brasil não é para principiantes.
Escrito por Marcelo Tas às 09h16