Na geografia, Paraty fica entre Rio e São Paulo. Na prática, é muito longe de tudo. Inclusive dos dois centros urbanos mais importantes do Brasil. Não existe aeroporto e, quanto mais você se aproxima da cidade, a estrada vai ficando pior e desconfortável.
O sotaque daqui não é carioca nem paulista. E o jeitão das pessoas tem mais a ver com os habitantes das Minas Gerias: discretos, observadores e cheios de segredos, assim os paratienses são. Não é a toa que a Flip, que pretendia uma proximidade com a comunidade local desde a primeira edição em 2003, levou pelo menos dois anos para ser adotada pelos locais.
Segundo Belita Costa, uma das fundadoras do evento, a peça estratégica da conexão da Flip com Paraty atende pelo nome de João José da Silva Jr., professor de Matemática do colégio municipal e técnico jurídico no Fórum. Mas na cidade, todos o conhecem por outra identidade e profissão: Jubileu, o artesão responsável pelos bonecos do “Assombrosos do Morro”, tradição do Carnaval de Paraty.
Na segunda edição da Flip, Jubileu foi convidado para dar uma oficina de bonecos. Havia 20 vagas. Apareceram mais de duas centenas de interessados, a maioria da própria cidade. Daí veio o clique: Jubileu virou o link da festa literária com a cidade.
Este ano, Jubileu é o responsável não só pela já tradicional instalação de personagens da literatura na praça principal, como também são dele os bonecos que decoram a Flip 2008.
O ateliê do artista se confunde com sua casa. E vice-versa. Jubileu e a mulher Nice, também professora e bonequeira, moram no Morro do Pontal, num clima de sítio do interior, em meio a galinhas e jabuticabeiras, de onde se avista a cidade. Justamente o tal morro de onde descem os “Assombrosos” para o carnaval e agora para a Flip.

A técnica para a confecção dos bonecos é simples como suas feições: arame, jornal velho e água com maizena. “E o erro as vezes é o mais bonito”, explica Jubileu. Ao contrário dos bonecos de Olinda, os bonecos paratienses mexem os braços, a cintura, são vestíveis. No carnaval, é natural, um braço ou uma barriga sempre sai do lugar. Criando o tal “erro” apontado por Jubileu que deixa os bonecos ainda mais assombrosos.
Mas como vocês conseguem produzir tanto boneco sem recursos ou grandes equipes? Conversa vai conversa vem, ele entrega: o vistoso leão do Mágico de Oz, que ocupa a praça central este ano, é uma remasterização do coelho de Alice no País das Maravilhas, usado no ano anterior. Outro segredo de Paraty, que só sai depois de muita conversa e cafezinho coado.
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Escrito por Marcelo Tas às 18h22