“Dia 2 de Fevereiro
Dia de festa no mar”
(Dorival Caymmi)
Salvador já está um azougue. Pelas ruas, uma questão delicada e polêmica. Enquanto turistas do Brasil e do mundo inteiro agitam a cidade atrás de abadás e caipiroskas de siriguela, muitos baianos não falam de outra coisa: o fato de que no próximo sábado, dia 2 de Fevereiro, pela primeira vez na história, a Festa de Iemanjá- única grande festa baiana sem origem no catolicismo, mas no candomblé- vai cair bem no meio do Carnaval!
Consultei a internet e os baianos mais antigos, todos confirmam: é o primeiro ano que os devotos, não necessariamente adoradores do trio-elétrico, vão ser obrigados a conviver com a folia.
A festa é uma tradição antiga (a foto acima é de 1940) dos pescadores do bairro do Rio Vermelho. Em torno da Casa do Peso, onde há uma imagem da santa, desde as primeiras horas do dia 2, são depositadas oferendas para serem levadas mais tarde para o mar pelos próprios pescadores. Ali se reunem mães de santo dos terreiros de Salvador que abençoam com passes, ali na praia mesmo, os devotos da Mãe D’Agua.
Claro, a presença de artistas que cultuam Iemanjá, como Maria Bethania, sempre atraiu a imprensa e foliões curiosos pela manifestação religiosa. Mas nada se compara com o volume de turistas e de mídia que já está aqui para o carnaval, a maior parte hospedada há poucos metros dali no bairro de Ondina, vértice turbulento do circuito Dodô dos trios elétricos.

A recepcionista Carla Shirlei, do restaurante que leva o nome da santa, está tranquila. Posa para minha lente (foto acima), confiante e sorridente. Tem ao lado a oferenda dela, já prontinha para a festa: um lindo cesto forrado de rendas e cetim, com a tradicional boneca e os perfumes. Mas tem gente preocupada sugerindo a construção de “barricadas” para impedir que algum trio mais rebelde, como o de Carlinhos Brown, possa invadir a praia do Rio Vermelho. Outros, já conformados, lembram que a própria prefeitura, prevendo a inevitabilidade da folia, mandou construir um palco no local para a apresentação de blocos devotos da Senhora das Águas.
Iemanjá e folia, há poucas horas do encontro. Quem viver, verá.
Imagens históricas: Fundação Gregório de Matos e Portal Rio Vermelho.
Escrito por Marcelo Tas às 12h15