“Escreva sobre violência”, sugeriu André. Saímos da exposição de fotos “Revogo”, na Caixa Cultural, e seguimos para uma mesa de bar no centro de São Paulo. O autor das fotos é ele mesmo, André Liohn.
Geralmente o cara é apresentado como o único brasileiro vencedor do prêmio Robert Capa – o mais disputado entre os fotógrafos de guerra do mundo. “Foda-se o prêmio”, desabafa. “Isso foi há três anos. Acabou. Basta. Vamos falar de coisa nova.” Sobre o quê você quer falar? – pergunto. “Não quero falar nada. Quero conversar sobre gente. Por que aceitamos essa violência toda?”
Foto: André Liohn

André registra guerras e conflitos pelo mundo. Seu principal objetivo é nos fazer refletir. Não dá a mínima para os conceitos de arte. Ganhou o prêmio Robert Capa em 2012 pela cobertura da guerra na Líbia sem nunca ter estudado teorias de fotografia. Nem mesmo sabia quem foi Robert Capa até então. Domina a técnica fotográfica como quem dirige um carro há anos. Não precisa pensar para operar a câmera. Seu foco está na provocação da imagem.
O BRASIL ESTÁ EM GUERRA?
Saiu do Brasil aos 19 anos. Voltou agora, 20 anos depois, provocado pela quantidade de vezes que ouviu a mesma pergunta: “a guerra que você fotografa lá fora é pior do que a que vivemos no Brasil?”. Não tinha resposta.
Foto: André Liohn

Dedicou três anos fotografando diferentes tipos de violência no país usando seu método de fotografia de conflito: proximidade física, emocional e política com o evento. Tudo para investigar a tal guerra velada brasileira.
Aos 41 anos, inaugurou a exposição Revogo com 60 fotografias e uma conclusão.
“Não vivemos uma guerra. Longe disso. Sofremos é de delinquência crônica.”
Para ele, a sensação popular de iminência de morte violenta é uma das semelhanças entre os dois casos. A principal diferença é o diálogo. A conversa não funciona em um país em guerra. Deixa de ser um método para combater o conflito. Ele lembra que o diálogo ainda é possível no Brasil, ainda que com argumentos pobres.
“Precisamos melhorar a qualidade dos nossos argumentos. Meu papel não é apresentar a solução, mas posso trazer elementos para melhorar os argumentos de quem toma decisão”, disse enquanto mostrava uma foto dos protestos brasileiros de 2013 contra a corrupção – ou os 20 centavos, sei lá.
Foto: André Liohn

André sabe bem do que fala. Principalmente sobre a violência no Brasil. Nasceu em Rubião Junior, distrito de Botucatu, interior de São Paulo. Na conversa de bar sob o edifício Copan, conta sobre a infância pobre.
Não nega que descobriu a função da violência ao longo da vida. “Às vezes, precisamos ser violentos. Chegava um cara mais forte que eu e queria me bater, ou comer meu cu à força, literalmente. E eu dizia: ‘meu amigo, é o seguinte. Você vai tentar, beleza. Mas eu juro que também vai doer em você.”
Descreve sua história como retrato autêntico da violência infantil no Brasil. Se considera um refugiado do seu próprio passado trágico. Carrega uma tatuagem com a palavra “refugee” no braço. “Eu não tinha base econômica ou intelectual. Resolvia tudo na violência ou na droga. Usei crack. A última coisa que podia dar errado era eu mesmo”, confessou.
Foto: Ludmila Tavares

Quando saiu do Brasil pela primeira vez virou lenhador na Suíça e na Noruega. Estudou enfermagem, cuidou de idosos, aprendeu idiomas até que se tornou diretor comercial de uma empresa. Viajou o mundo e ganhou algum dinheiro. O suficiente para comprar uma BMW X5 e uma câmera semi-profissional para impressionar a ex-namorada que gostava de tirar fotos.
HEROÍNA E A FOTOGRAFIA
Descobriu a fotografia como profissão aos 30 anos quando buscou a heroína em uma crise de solidão. Nunca injetou nada. Desistiu todas as vezes que tentou comprar a droga. Mas fez amizade com os usuários e começou a tirar fotos daqueles momentos.
“Era trash. De alguma forma, estava fotografando a mim mesmo. Quase fui um deles.”
Uma das primeiras histórias que contou usando a lente de uma câmera foi de uma viciada em heroína. Enquanto conversavam, notou um sangramento entre as pernas dela. Sugeriu ser menstruação, mas a garota tirou um pequeno feto morto da calça. Ele registrou tudo. Até o atendimento ginecológico no hospital. As fotos chamaram atenção dos assistentes sociais e da imprensa. Um jornal norueguês publicou as imagens. A série o levou ao seu primeiro prêmio, naquele mesmo ano, de melhor fotógrafo da Noruega.
Foto: André Liohn

PRIMEIRA GUERRA
Viu a primeira guerra em 2006 quando desembarcou na Somália. O amigo Hassan Abdi recebeu um convite para ser diretor da rádio Somali All Shabelle. Abdi alertou André sobre a guerra. Ele ignorou os riscos e decidiu seguir viagem com ele.
“Guerra é o caralho. Sou brasileiro, vou ficar de boa. Saí completamente ignorante sobre a Somália. Só quando cheguei lá entendi o que era guerra.”
Descreveu Mogadíscio, a capital, como um lugar totalmente destruído. Pessoas partidas ao meio, um cinegrafista sueco morto na sua frente. “Fiquei quatro dias. Fui embora correndo e morrendo de medo”, contou.
Foto: André Liohn / Folhapress

Meses depois, soube que Abdi foi torturado e morto. André ainda carrega no pescoço um colar que recebeu de presente do amigo somali. “Vários diretores da All Shabelle foram mortos naquela época. A rádio funciona até hoje. Esses caras são heróis”, contou enquanto mostrava o site ainda ativo da rádio. A morte do amigo despertou um ódio e atração pelo lugar que o levou a voltar para a Somália mais de dez vezes. “Virei o cara que sabia da Somália. Naquele momento, os fotógrafos só queriam saber de Afeganistão e Iraque. Ninguém queria saber da Somália”.
Esta foi a primeira cobertura de conflito profissional. Nunca mais parou. Passou pela Líbia, Haiti, Etiópia, Iraque e vários outros países.
“Chegar tão perto da dor pode ter virado um vício. Eu não sabia lidar com a minha própria dor. Estava desumanizado. Era um voyer da desgraça dos outros. Ainda que eu tivesse as melhores das intenções.”
EDUCAÇÃO E A FUGA DA ESCOLA
André nunca se deu bem com a escola. Estudou até a quinta série. Falsificou o histórico escolar do ensino médio em Botucatu para se matricular na escola superior de comércio exterior na Noruega.
Foto: Ludmila Tavares

O fotógrafo aposta na capacidade do diálogo entre humanos para aprender. “Acho estranho que a gente tenha um negócio chamado bomba atômica que extingue o outro por não conseguir mais dialogar”, comentou.
“Discordo da ideia de que a educação melhora um país. Entendo que o país pode melhorar a educação”.
A Coréia do Sul, na leitura dele, melhorou seu sistema de ensino a partir de uma decisão da sociedade de que deveria investir na educação. “Se você pensar que a educação vai sempre melhorar a sociedade, está aceitando que a sociedade será sempre fruto de uma ideologia política de um Estado. E não o Estado fruto de um projeto social.” Na mesma linha, critica nosso consumo exagerado de educação e saúde privada em vez de cobrar dos governantes a melhoria do serviço público.
REUMANIZAÇÃO NO BRASIL
“Eu já tinha fotografado mães passando por humilhações para visitar um filho na prisão. Mas nenhuma dessas mães era a minha. Hoje eu sei o que a minha mãe passa”, contou em referência ao irmão preso após explodir uma bomba caseira na casa dos próprios pais.
“É muito difícil olhar para o próprio problema. Precisei revogar muitas coisas dentro de mim. Precisei conhecer a violência mais aguda para voltar ao Brasil e me reumanizar”.
André não descarta parar de fotografar e mudar de carreira mais uma vez. “Estou exausto. É a melhor palavra para descrever minha fragilidade. Entreguei tudo para fazer esse trabalho no Brasil. Eu me identifico em cada uma dessas fotos. Meu envolvimento pessoal fez ser o projeto que mais me desgastou até agora”.
Foto: André Liohn

Faz questão de frizar que não restringe a reprodução das suas fotos. “Pode fotografar e filmar o que quiser. Comigo não tem dessas coisas”, me disse assim que nos encontramos na exposição. Ele só não revela os nomes e locais dos seus personagens. Para todos, a mesma regra. Onde? Brasil. Quando? Hoje. Quem? Nós.