Dueto para Um

Por Marcelo Tas

Há duas semanas tive o privilégio de assistir a um ensaio especial da peça “Dueto Para Um” na casa do maestro João Carlos Martins. Na foto acima, que tirei com o celular, vê se os dois atores de “Dueto”, Bel Kowarick e Marcos Suchara, observados atentamente pelo maestro em sua poltrona vermelha.

 

A peça tem um formato curioso: o público é testemunha de seis sessões de psicanálise de uma violinista famosa com seu terapeuta. O texto do inglês Tom Kempinsky é baseado na vida da excepcional violoncelista Jacqueline Dupré (video abaixo, procure-a mais pelo YouTube) que, como João Carlos Martins, teve a vida dela transformada por uma doença degenerativa que a limitou progressivamente de expressar sua arte através de um instrumento musical.

 

Sou suspeitíssimo para dizer que o ensaio foi muito mais que sensacional porque sou, na vida real, o marido da atriz. Não podendo dizer mais nada, publico abaixo as impressões do próprio maestro João Carlos Martins, que estarão no flyer da peça (http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=175771) que tem estréia no próximo 5 de Agosto, no Sesc Consolação, em São Paulo.

 

Uma última palavra, absolutamente desnecessária a esta altura do campeonato: eu recomendo 🙂

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http://www.youtube.com/watch?v=Qbs2H_PvGpE&feature=player_embedded

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DUETO PARA UM

Faço parte de um grupo que ficou na dúvida sobre a necessidade de fazer ou não terapia diante das adversidades da vida. Hoje, não saberia explicar a razão de jamais ter feito psicanálise. Talvez insegurança, medo e incerteza.

Recentemente, participei de seis sessões fantásticas, ao assistir um ensaio da peça “Dueto para um”, com Bel Kowarick e Marcos Suchara. O drama é inspirado na vida de um dos gênios da arte interpretativa do século XX, a violoncelista Jacqueline Dupré, encenada por estes dois atores, Bel e Marcos, sob a direção de Mika Lins, que me levaram às lágrimas.

Acabei incorporando a personagem Stephanie e sua esclerose múltipla, que a alijou do exercício de seu ofício de levar música através do seu instrumento, o violino.

Durante as seis sessões da obra maravilhosamente elaborada de Tom Kempinsky, com tradução de Ana Saggese, comecei a entender a relação do psicoterapeuta e da paciente. Ela acaba chegando à conclusão que sua salvação só podia ser a música. Naquele momento, percebi que os diálogos entre os dois foram os mesmos que tive comigo mesmo durante anos e anos. Cheguei a torcer pela morte, já que não teria coragem de me matar. Cheguei a mudar o foco da minha vida, sem na verdade conseguir me focar. Jamais admiti que estivesse deprimido, mas finalmente fui percebendo que Deus tinha me mostrado um caminho através da própria música que eu tentava rejeitar. Não tenho dúvida que se tivesse feito análise talvez chegasse à mesma conclusão muito mais cedo. Ao assistir à maravilhosa interpretação de Bel e Marcos passei, naqueles minutos, por todos os processos pelos quais Stephanie passou. Talvez eu tivesse me transformado em maestro bem antes dos 64 anos, e já estaria dividindo há muito mais tempo a felicidade que encontrei na regência com todos aqueles com quem hoje tenho a oportunidade de compartilhar a música. Desde a sala de concertos até as comunidades mais carentes.

Fiquei honrado por assistir em primeira mão o trabalho emocionante da diretora e atores, que certamente ajudará inúmeras pessoas a refletirem. Mais do que nunca cheguei à conclusão de que a vida transformou a saga das minhas mãos no milagre das mãos, e de que o artista só encontra salvação através da arte.

João Carlos Martins

Agosto de 2010

Foto: Caio Guatelli

Escrito por Marcelo Tas às 14h55

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