
O empresário e apresentador Luciano Huck foi assaltado nos Jardins em São Paulo. Carro no trânsito, revólver na cabeça, relógio subtraído, aquela cena que muita gente conhece de perto… A diferença é que Luciano, além de ser um famoso da TV, teve coragem de expor sua indignação num texto sincero e desconcertante na Folha de São Paulo de ontem.
Hoje, a leitura da seção de cartas da Folha é uma oportunidade imperdível de calibrarmos a real situação de viver no Brasil. Em cada linha, podemos ler as virtudes e doenças crônicas brasileiras, tais como: solidariedade, intolerância, preconceito, crueldade, fascismo, compaixão, etc…
Faz tempo que, mais do que os colunistas, minha sessão preferida de opinião nos jornais é a sessão de cartas. Nesses tempos digitais, de participação ativa do leitor-internauta-consumidor, já mereceriam um melhor espaço editorial nos veículos de comunicação.
Aqui você encontra o texto original de Luciano Huck. Este blog envia solidariedade e o aplaude aplaude pela ousadia de expor sua dor e indignação.
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PAINEL DO LEITOR- Folha de S. Paulo
Assaltado nos Jardins
“Após ler o artigo de ontem de Luciano Huck (“Pensamentos quase póstumos’), vejo que até a elite brasileira começa a ficar temerosa da abrangência que a violência tomou em nosso país. Assim como o apresentador se viu com um 38 na cabeça e pensou em como seria horrível deixar sua família, milhares de brasileiros vivem isso no dia-a-dia. E nem todos têm a sorte de o bandido não atirar.
Quantas e quantas famílias órfãs existem e se espalham pelo nosso país? O número é incontável e crescente. E, assim como Huck, a grande maioria paga seus impostos corretamente. O apresentador acordou de um sonho? Bem-vindo à realidade do Brasil! Se o seu despertar contribuir para acontecer alguma coisa neste país de elites, pode ter certeza de que esse assalto não foi em vão.”
JANE CARDOSO COSTA (Belo Horizonte, MG)
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“Gostaria de dizer a Luciano Huck: bem-vindo ao mundo real. Aqui, crianças chegam à 5ª série sem saber ler, mas chegam, e isso diminui o índice de analfabetismo. Aqui, a gente chega ao posto de saúde e consegue marcar uma consulta -está certo que não é para agora (só em 120 dias), mas a gente consegue. Aqui, pela manhã, pedimos “bença” ao traficante e, à noite, à polícia (afinal, a gente tem que se dar bem com todo mundo…). Aqui, todo mundo sabe o que de errado acontece.
A gente sabe quem vende jogo do bicho, quem pede propina, quais são os políticos que roubam. Sabe aquelas maquininhas de jogo, aquelas que são proibidas? Aqui tem um monte. Alguns falam que elas são da polícia, por isso temos de ficar quietos, enquanto nossos pais, depois de um dia de trabalho, perdem ali o dinheiro daquilo que seria o nosso omelete no domingo.
Todos nós estamos cansados de gritar, mas nossa voz não é ouvida. De coração, sinto muito que isso tenha acontecido com o apresentador, pois sei o que é ter uma jovem esposa e uma pequena criança nos esperando em casa. Mas, agora que ele faz parte desse nosso seleto grupo, que nos ajude a gritar.”
CESAR ALEXANDRE (Osasco, SP)
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“Depois de a Folha nos presentear com a entrevista com Eric Hobsbawn, nos cobra a paciência de ter que engolir Luciano Huck e sua auto-compadecida situação nada presunçosa, quando sugere o possível noticiário do seu possível desaparecimento no caderno cultural. A partir de agora, poderemos ter na terceira página da Folha os relatos das experiências de assaltos sofridos por apresentadores. Sugiro que o assaltante tenha o direito de resposta.”
RICARDO MELLO (Goiânia, GO)
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“Luciano Huck queixou-se: “onde está a “Elite da Tropa’? Quem sabe até a “Tropa de Elite’!”. Ele poderia ter sido mais direto e dizer: onde está a “Tropa DA Elite?”.”
FERNANDO DA SILVEIRA (São Paulo, SP)
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“Os policiais que estão na linha de frente do combate ao crime (todos os que não são delegados ou oficiais da PM) sabemos onde está o “Rolex roubado” do Luciano Huck -metáfora para o Graal da segurança pública brasileira. Mas não vou trocar tiro com bandidos recebendo um salário-base de R$ 568,29 (e, agora, sem o tíquete alimentação de R$ 80, que nos foi retirado em agosto de 2007). Prefiro correr risco no bico para sustentar os meus filhos.
Se Huck não está feliz conosco, pode entrar para o movimento “Cansei” e cobrar do governador Serra o motivo de o PSDB ter tanta raiva da polícia paulista e mantê-la na miséria há 14 anos. Eu queria fazer minha inscrição naquele movimento, mas será que aceitam um policial sem dinheiro?”
ROGER FRANCHINI (São Paulo, SP)
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“Entendo a indignação de Huck, mas nenhum super-herói daria conta de estar em dois lugares ao mesmo tempo para impedir um assalto. Nem a “Rota na rua” dá conta de impedir todos os crimes da cidade. O problema é e sempre será a injusta distribuição de renda em nosso país, uma das mais vergonhosas do mundo. Quantos ricos o apresentador conhece (e ele deve conhecer muitos) que estariam dispostos a ajudar a reverter este quadro?”
KLEBER EDUARDO MANTOVANI (São Bernardo do Campo, SP)
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“Embora tenha sido no calor dos acontecimentos, Luciano Huck retratou de forma clara a verdade que os políticos responsáveis pela nossa segurança tentam esconder. O que comemorar no Dia das Crianças, 12 de outubro, diante de tantas barbáries que a mídia divulgou nos últimos dias, diante da educação escolar que aprova alunos sem o conhecimento mínimo necessário? Franco da Rocha, cidade onde nasci, vivo e sou vice-prefeito, foi destaque na mídia nestes últimos dias por ser um depósito desses bandidos que são presos e passam o fim de semana “em casa”, matando e assaltando.
É preciso investimentos do Estado nas pessoas, nos jovens principalmente, para que sejam cidadãos, e não distribuidores ou vítimas de estiletes e de bala calibre 38.”
MARCELO CYPRIANO, vice-prefeito (Franco da Rocha, SP)
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“O senhor Luciano Huck me constrangeu com seu “desabafo”. Não pelo fato de ter sido vítima de violência, afinal, era de esperar que “sua hora” chegasse. Mas por achar que, sendo pessoa pública e digna da comoção de uma “multidão”, estaria imune a ela. Tenho até pena do senhor Huck, pois ainda acredita que ser cidadão se resuma a votar ou a pagar impostos ou a dirigir uma ONG. Com o espaço de que goza na mídia, com o carisma que lhe renderia uma “homenagem no caderno de cultura” e com a renda que concentra, poderia fazer mais que isso.
Caso seu programa se preocupasse não apenas em “fazer este país mais bacana” mas em desenvolver uma consciência crítica no público, talvez nosso país fosse socialmente mais justo. Talvez, se os espectadores fossem incentivados a debater a importância de cada indivíduo na busca de soluções e estimulados a uma participação política ativa, Huck não estaria “à procura de um salvador da pátria”.”
CLEBER FERREIRA SHIMIZU (Londrina, PR)
Escrito por Marcelo Tas às 09h38