A Folha de S. Paulo publica hoje na Ilustrada uma enquete com as 10 mais da música caipira de todos os tempos. Fiquei surpreso e honrado com o convite para integrar o júri, só com feras- compositores e pesquisadores do gênero. Mais ainda quando soube que meu nome foi sugerido por José Hamilton Ribeiro, meu ídolo no jornalismo verde-amarelo, além de autor do sensacional “Música Caipira- As 270 Maiores Modas de Todos os Tempos”.
Abaixo, vai minha lista completa com a respectiva justificativa para cada canção. A votação dos jurados está disponível no site da Folha.
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- “Tristeza do Jeca”, de Angelino Oliveira, com Tonico e Tinoco (1958)
“Que me desculpem Tonico e Tinoco, o melhor intérprete desta canção foi meu ‘vô’ João. Nas festas da família lá em Ituverava, sempre chegava a hora dele cantar, cheio de orgulho e com uma verdade doída saindo do peito, que ‘nasceu num ranchinho à beira-chão todo cheio de buraco onde a lua faz clarão’. Todo mundo deixava o que estava fazendo para ir correndo ver o show. Um verdadeiro ‘resumo da ópera’ caipira.”
- “Calix Bento”, domínio público, com Pena Branca e Xavantinho (1988)
“Nas vozes consistentes de Pena Branca e Xavantinho, que parecem sair da cabeça e não da boca, esta canção vira um hino religioso pungente. Traz imagens fortes da minha infância, onde a gente ia de uma fazenda a outra, para os rituais de levantar bandeira para os santos do mês de junho. Pelo mesmo motivo, esse canto que sai de dentro da alma, é deles também o meu terceiro posto.”
- “Luar do Sertão”, de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco, com Pena Branca e Xavantinho (1996)
- “Menino da Porteira”, de Teddy Vieira e Luizinho, com Sérgio Reis (1973)
“Esta é a primeira música que todo menino do interior aprende a tocar no violão. Quase sempre, é também aquela que abre uma roda de viola. O intérprete da minha versão ‘oficial’ ficou o Sérgio Reis.”
- “Saudades de Minha Terra”, de Goiá e Belmonte, com Chitãozinho e Xororó (1996)
“Este é meu ‘hino nacional’ particular. Afinal: ‘de que me adianta viver na cidade se a felicidade não me acompanhar’? A letra traz ainda uma imagem tocante e cinematográfica. Enquanto descreve as agruras do caipira na cidade diz que, lá no mato, ‘alguém está chorando com o rádio ligado’.”
- “Estrada da Vida”, de José Rico, com Milionário e José Rico (1980)
“Para mim, Milionário & José Rico são como Batman & Robin _super-heróis de história em quadrinhos. Difícil imaginá-los de verdade. Tanto pelo visual quanto pelo transe coletivo que provocam nos lugares por onde passam. ‘Estrada da Vida’ e ‘Jogo da Vida’ são a trilha sonora deste HQ.”
- “Jogo da Vida”, com Milionário e Zé Rico
- “Chico Mineiro”, de Tonico e Francisco Ribeiro
“Trata-se de uma epopéia. Uma história super dramática, narrada nos mínimos detalhes e sem repetições, como numa canção de Renato Russo. O desfecho só é revelado na última palavra do último verso. É sempre emocionante e divertido cantá-la em grupo.”
- “Índia”, de M.O.Guerreiro e J.A.Flores, com Cascatinha e Inhana (1978)
“Uma canção que vai além da música caipira mas não se descola dela. Ganhou um novo sentido quando conheci a figura que inspirou a música quando garotinha: a grande atriz Marlene Fortuna com quem trabalhei no grupo de teatro de Antunes Filho.”
- “A Coisa Tá Feia”, de Tião Carreiro e Lourival dos Santos, com Tião Carreiro e Pardinho
“A letra dessa canção é surpreendentemente contemporânea. Fala da velocidade do mundo, da ambição desenfreada, das guerras que não cessam, rima bebê de proveta com capeta. Parece que foi composta ontem, em Wall Street, durante a quebradeira dos bancos. Sintetiza o jeito caipira de olhar o mundo: ao mesmo tempo com dureza, falsa ingenuidade e humor agudo.”
Escrito por Marcelo Tas às 11h24