O Amapá andou nas manchetes. Foi tema da Beija-Flor, escola carioca campeã deste ano e recebeu a visita de Lula e Sarkozy, o presidente da França, ali do outro lado do rio Oiapoque, na Guiana Francesa.
Passada a festança, o blog recebe correspondência de amapaense mostrando que por lá as coisas já voltaram a ser quarta-feira de cinzas. Só tenho uma observação a acrescentar ao e-mail da Vanessa: precisa dizer quem é ele sim, Vanessa. O senador que representa o estado do Amapá no Congresso Nacional atende pela alcunha de José Sarney, aquele do bigode, ex-presidente, natural, residente e proprietário de quase todos os meios de comunicação no estado do Maranhão (ué, mas pela constituição ele não deveria ser residente do Amapá?).
Segue e-mail da Vanessa:
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Olá Marcelo, tudo bem?
Acabei de ver uma reportagem antiga sua em seu blog sobre o Oiapoque. Realmente, a situação não mudou naquela região e continua pior ainda. Eu espero que, pelo menos você, consiga escrever algo sobre a verdadeira realidade do extremo norte do País.
Meu nome é Vanessa Gabriel, sou jornalista e moro em São Paulo. Até aí, nada de novo a não ser por um detalhe: nasci e cresci no Amapá, a cidade que, nas últimas semanas, está tão comentada por ter sido o tema escolhido pela Beija-Flor para o carnaval 2008 e que acabou levando o título.
Nada contra o carnaval, apesar das minhas restrições à festa desses últimos anos. Eis que aquele estado que quase ninguém conhece, conseguiu sacolejar a avenida e se tornar um pouco mais conhecido que o usual. Te confesso que fiquei emocionada. Ver o meu estado ser cantado no Sambódromo e sendo representado de forma tão rica até palpita o coração muito mais que o normal.
O problema é que a Macapá cantada na avenida tem uma dura realidade bem diferente que a gente vive. Falo a gente porque por mais que eu more há quase quatro anos em São Paulo, minha família continua lá e eu sei muito bem qual é o cotidiano dos amapaenses. Somos um estado esquecido pelo poder público, seja ele federal, estadual ou municipal. Somos um estado representado há mais de 18 anos, em Brasília, por um cidadão que não nasceu lá, que não mora lá e que nem leva recursos para o povo do Amapá. Que, inclusive, quando está na cidade, os jornais o anunciam como ilustre visitante. Nem preciso dizer quem é.
Além disso, somos um estado sem lei. Onde crianças são tratadas como objeto de compra e venda (quase escravos sexuais) por franceses que realizam bacanais nas fronteiras do País e a saúde pública piorou tanto que as mulheres têm seus filhos nos corredores da única maternidade da capital, sem nenhum atendimento decente.
Somos um estado cujo governador cancelou a maior parte dos projetos sociais e colocou todos os seus parentes e correligionários para governar, mesmo sem ter o mínimo de experiência com o dinheiro público. Somos um estado cujo o mesmo governador, neste momento, está sendo acusado de utilizar a máquina pública para patrocinar a sua campanha à reeleição e, por isso, está respondendo a um pedido de cassação.
Gostaria, sinceramente, que os brasileiros do resto do País tivessem consciência desse outro lado da história e percebessem que o Amapá, depois da folia do carnaval, volta à quarta-feira de cinzas, que já dura muito mais tempo do que ela realmente deveria.
Espero contar com a sua ajuda,
Um grande abraço,
Vanessa Gabriel
Escrito por Marcelo Tas às 14h42