Uma guerra inútil foi travada nas redes sociais: devemos ter compaixão pelo desastre em Mariana ou pelo ataque terrorista em Paris?
Antes de julgar quem anda julgando os indignados virtuais, a tal “compaixão seletiva” não é assunto novo. O francês Émile Durkheim, pai da sociologia, propôs em 1893 a divisão do conceito entre a solidariedade orgânica e mecânica.
Montagem www.correiodeuerlandia.com.br

Os tipos de solidariedade por Durkheim
A solidariedade mecânica é vivida por indivíduos que participam da mesma convivência: um país, família, aldeia ou religião. Para o autor, essa semelhança entre valores sociais seria mais comum em sociedades de menor complexidade social onde os indivíduos exercem funções parecidas.
Já a solidariedade orgânica seria usual nas sociedades industriais formadas por indivíduos com funções especializadas e interdependentes. Com laços mais fracos entre a população, as relações seriam mais individualistas. Em tempos mais egoístas, a união dos indivíduos só acontece por saber que não conseguimos sobreviver sozinhos. A solidariedade não ocorre mais pelo sentimento de semelhança com o próximo.
Qual é a nossa sociedade?
Mais de um século após a publicação do livro “Da Divisão do Trabalho Social” de Durkheim, encontramos em uma sociedade muito mais complexa do que poderia ser imaginada. Somos conectados por amigos e ídolos em comum, likes, idiomas, sites e algoritmos.
As integrações superaram as barreiras físicas e as tradições. Sabemos mais sobre a vida de uma celebridade pop do que dos nossos próprios familiares. Recebemos vídeos em alta definição de acontecimentos a milhares de quilômetros da nossa casa, mas não sabemos o nome dos nossos vizinhos.
O traje preto do luto foi substituído por máscaras coloridas nas fotos de perfil do Facebook. As lamentações nos jantares de família se transformaram em posts molhados. E agora? A quem dedicar nosso pesar e solidariedade? Como se comportar em momentos de tragédia?
Um por todos, todos por um
A frase dos Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas virou lema tradicional da Suíça após uma série de inundações pelos alpes em meados do século XIX. “Um por todos, todos por um” virou o slogan da campanha por arrecadação de doações de uma nação jovem que havia se tornado uma confederação 20 anos antes. Em 1902, a frase foi escrita na cúpula do Palácio Federal da Suíça e reconhecida como lema nacional.
Reprodução Wikipedia

Creio que vivemos algo semelhante. Tempos que pedem união de verdade. Todos por todos. Unir esforços pelo conhecimento, reconhecer nosso papel na sociedade e agir.
CHECKLIST DO BOM SENSO
Que tal fazer um checklist antes de rasgar o verbo? Mariana, Paris, violência urbana, aldeias indígenas ou seja lá qual bandeira você queira levantar no seu perfil social. A regra é a mesma: pratique o bom senso.
1. E SE FOSSE COMIGO?
Pratique a empatia. Coloque-se no lugar do outro, procure viver a dor alheia por alguns segundos e imagine o mundo sob o ponto de vista da vítima. O que você esperaria do próximo?

2. ABOBRINHA EM ABUNDÂNCIA NA FEIRA DE POSTS
Respire fundo. Leia mais antes de criticar. Contribua com conteúdos interessantes na sua rede. Abobrinhas são despejadas a todos os momentos. Lembre-se de que sua mensagem pode ser fonte de informação para os seus amigos. Leia o que está além do Facebook. Consulte sites, amigos e os velhos livros. Você não precisa ser o primeiro a falar sobre um assunto. Procure trazer algo relevante, autêntico e autoral para o debate.

3. OPINIÃO CONTRÁRIA NÃO MACHUCA
Antes de encarnar o hater, leia opiniões contrárias. Tente compreender o que compõe o argumento das outras pessoas. Não perca a oportunidade de repensar suas convicções.

4. É FEIO SER HATER
Você não é mais bonito por ser do contra. Aprenda a conviver com opiniões diferentes. Quando pensar que vale a pena, compartilhe argumentos. Lembre-se de que por trás de cada foto do Facebook existe uma pessoa. E muitas delas são suas amigas.

5. CUIDADO COM AS ARMADILHAS VIRTUAIS
Ao encontrar um conteúdo, verifique a fonte. Cuidado com os mitos da Internet. Antes de compartilhar aquele vídeo com revelações aparentemente inéditas, pesquise sobre o assunto.

6. UM CRIME NÃO COMPENSA O OUTRO
As redes sociais viraram o grande muro das lamentações. Quando manifestar o luto ou opinião, pense se não está cometendo outra agressão. Cuidado com as falsas acusações, racismo, xenofobia ou qualquer preconceito. Reforçar o ódio ou alimentar discursos agressivos não contribuem para a solução dos problemas.

7. A BOMBA NO CONGRESSO NÃO RESOLVE
“Envie um cartão-postal de Brasília para os terroristas”. Em vez de desejar uma bomba no congresso, por que não compartilhar sugestões de voto ou maneiras de cobrar dos políticos? Não se esqueça de duas coisas: o Congresso Nacional é uma instituição de todos nós, quem elege nossos representantes não são ETs mas nós mesmos.

8. OLHE NO ESPELHO
Como você se relaciona com o mundo? Qual sua contribuição para o meio ambiente? Se cada post gerasse uma atitude positiva, a sociedade ganharia muitos likes.
OakleyOriginals / Flickr

9. ALÉM DOS LIKES
Curtir um post ou compartilhar um meme é pouco. Pense em ações. Que atitudes transformadoras estão ao seu alcance? Vá além do digital e compartilhe o que há de bom com o mundo.

10. DE BOA
Reivindique. As redes sociais são excelentes ferramentas para mobilizar e manifestar opinião. Saiba como apresentar suas ideias de um jeito atraente, divertido e consistente. Manter o respeito e exercer a cidadania é uma arte. Pratique.
