Terceirização: coisa do capeta?

07/03/2005 - Estado de S. Paulo - LINK

PAREDÃO - Mocinhas e mocinhos que nos atendem pelo telefone são amestrados para usar o gerúndio e empurrar o abacaxi de volta para a gente

Terceirização: coisa do capeta?

Marcelo Tas

É tarde demais, eu sei, mas finalmente encontrei a causa das dores do mundo na era digital: é a tão festejada terceirização.

Parece assunto inofensivo, para ser discutido nas universidades ou em seminário de executivos em hotel-resort da Bahia. Mas não tenham dúvida: a situação é grave!

Terceirizar já está no dicionário. É o ato de uma empresa transferir para outra parte suas atividades-meio, proporcionando recursos para sua atividade-fim. Entendeu? Assim ela economiza estrutura, pessoal e desburocratiza a administração. Continua complicado? Então, vamos aos exemplos.

No mundo moderno da terceirização, marcas de tênis famosas foram reduzidas a um edifício high-tech em Chicago ou Frankfurt. Algumas delas não possuem uma única fábrica no mundo!

Os processos de design, projeto, manufatura, incluindo aí a exploração do trabalho infantil… estão terceirizados pelo submundos do Terceiro Mundo. A empresa virou apenas um logotipo. Um cestinho mágico de fibras óticas onde a galinha bota os ovos de ouro.

Segundo a revista The Economist, a terceirização foi inventada pelos ingleses há 200 anos. Uma companhia de seguros contratou bombeiros para proteger as casas seguradas por ela. A empresa assumia duplamente a responsabilidade. Ressarcia o prejuízo em caso de incêndio, que evitava através dos bombeiros freelances.

Hoje, no mundo digital, a coisa se inverteu. Terceirizar virou sinônimo de passar a batata quente online para outros. De faturar o máximo assumindo a mínima responsabilidade.

A aplicação do conceito contemporâneo de terceirização, “outsourcing” em inglês, é atribuída à Ross Perot. Lembra dele? É o velhinho texano, bilionário de ultradireita, que chegou a se candidatar duas vezes à Presidência dos Estados Unidos.

Em 1962, Perot fundou a EDS, Eletronic Data Systems. Convenceu algumas empresas importantes a se fragmentar e cuidar só do negócio principal, o chamado “core business”. O resto ficava por conta de Ross e das ferramentas de TI, Tecnologia da Informação. E polpudos pagamentos mensais, é claro.

A coisa deu tão certo que a EDS hoje está em 58 países. Seu contrato mais recente (e polêmico) é conhecido pelo apelido de Warnet, uma internet fechada para o Pentágono usar em épocas de guerra. Ou seja, o brinquedinho da hora. Valor da conta: US$ 9 bilhões.

Quer outra? Artificial Life, empresa de software de Hong Kong, lançou na semana passada a namorada para celular. Você faz o download e Vivienne, no melhor estilo Big Brother Brasil, fica armazenada no seu telefone. Pronta para receber carinho e gastar o seu dinheiro, 24 horas por dia. É a terceirização da amante.

Você acha que estou vendo fantasmas? Então olhe para o Corinthians. O time de futebol com a maior torcida do Brasil é agora comandando por Kia Joorabchian, um iraniano com ligações na Rússia, que aprontou um outsourcing futebolístico transformando o Coringão em El Coringón. O iraniano terceirizou o timão para os argentinos!

Mas não há nada que justifique mais os meus temores do que as mocinhas das empresas que nos atendem pelo telefone. Estas, sim, são as legítimas representantes do monstro deformador da terceirização.

Foram amestradas a usar o gerúndio e a empurrar o abacaxi de volta pra gente como se o problema não fosse delas. E o pior é que não é mesmo. São robôs treinados. Terceirizados!

Falar com uma delas é como tentar ganhar uma partida de tênis jogando contra o paredão. Devolvem sem dó a questão a ser resolvida. A bolinha cai sempre do nosso lado da quadra.

Na semana passada, uma dessas mocinhas-gerúndio me convenceu de que eu é que deveria providenciar a instalação do novo serviço de TV por assinatura que eu estava contratando, e pagando, para a empresa dela instalar! Acatei a ordem resignado.

E fui para a internet digitar o pagamento do serviço que eu iria prestar a mim mesmo. Agora no papel de funcionário terceirizado do meu próprio banco. Será que estou exagerando ou a terceirização é mesmo coisa do capeta?