O chat do crioulo doido

21/02/2005 - Estado de S. Paulo - LINK

SHAKESPEARE INTERNAUTA - O que será que o autor de 'Romeu e Julieta' acharia do drama humano que rola na internet?

O chat do crioulo doido 

Marcelo Tas

 

A vida é uma comédia de erros ou a velocidade está tão grande que não dá para acompanhar as mudanças? Não é filosofia barata. Estou falando do e-mail!

O primeiro e-mail da história foi enviado em 1971, por um nerd chamado Ray Tomlinson, que trabalhava na Arpanet, a mini rede acadêmica que inspirou a internet. Ligava poucos computadores. Basicamente, duas instituições de ensino superior da Califórnia: UCLA e Stanford.

A primeira mensagem eletrônica do Ray foi endereçada a ele mesmo já no formato do e-mail de hoje: o nome dele em minúsculas (tudo junto), a letrinha arroba (@) e o nome do provedor ponto alguma coisa. O texto dizia "1-2-3 testando", como fazemos até hoje com o microfone no ensaio de shows e festinhas de formatura.

Dez anos depois, dois pós-graduandos da Duke University desenvolveram fóruns de discussões não exclusivamente acadêmicos: a Usenet. Foi em 1981, eram 150 computadores. Um ano depois, o número pulava para 400. Hoje, só entre servidores, as máquinas que funcionam como nós da rede, estima-se que existam 300 milhões de computadores formando a gigante teia digital que é a internet.

Comecei a usar e-mail em 1993 num provedor chamado Alternex. Funcionava no Ibase, ONG fundada por Betinho (sim, aquele da Campanha da Fome, irmão do Henfil) no Rio de Janeiro. Você se lembra com quem trocou seu primeiro e-mail? Eu me lembro: com um estranho. Encontrei um endereço quando navegava por um mar de códigos, cliquei o nome do cara e perguntei algo do tipo: tem alguém aí? Para meu espanto, depois de algum tempo chegou a resposta. Tinha!

Você já parou para avaliar o tamanho da mudança que esse tipo de carta expressa na velocidade da luz causou na sua vida? Eu já. Olhei para o lado e contei pelo menos cinco amigos que tiveram suas vidas viradas do avesso por conta de mensagens eletrônicas. Vai desde a clássica separação causada por um flagra na caixa postal dele ou dela. Até um casal que passou meses trocando intensos e-mails. Para só depois se conhecer de verdade e se casar em carne e osso. Morando na mesma cidade!

E olha que estou deixando de fora aquele tipo de azaração bizarra, onde garotas e garotos publicam na rede não só o e-mail, como o diâmetro da coxa e um close do piercing no umbigo. Para um senhor de meia-idade como eu, o grau de exposição da molecada hoje na rede é algo difícil de assimilar. Vivemos uma espécie de chat do crioulo doido. O equivalente do mundo real seria todo mundo descer pelado dos apartamentos e puxar conversa com o primeiro estranho que aparecesse no meio da rua. Estou exagerando?

Cutuco a internet, a geleca eletrônica que não dorme, para pegar um exemplo para vocês. Encontro Lorâine, estudante, 21 anos, numa comunidade virtual chamada: "Manda uma mensagem prá mim!". Ela publica o e-mail e mais 12 fotos em vários estilos: com a galera, com a família, de calça comprida, de biquíni, fazendo beicinho… Veja como ela se autodefine:

"Sou alegre, divertida, adoro uma bagunça… Também sou sozinha, carente e preguiçosa. Não sei viver só (apesar de morar sozinha)! Preciso de pessoas, preciso de carinhooooo!" Gente, eu não sou o pai da Lô, mas me preocupo demais com essa meninada.

O Instituto IDC estima que em 2006 atingiremos a marca de 60 bilhões de e-mails por dia. Certamente, se estivesse entre nós, William Shakespeare estaria fascinado pela internet. Ela é um sampler do drama humano, um autêntico moedor de carne. São casamentos que se esfarelam num clique, gente que muda de país atrás de um príncipe encantado, bate-bocas via e-mail que destróem amizades de décadas…

Em busca de uma última luz sobre o assunto, procuro auxílio da minha filha Luiza, de 16 anos. Ela está viajando pelo exterior. Mando e-mail e nada. Consigo localizá-la no telefone e descubro: na turma dela ninguém mais usa e-mail! Só se falam através do comunicador instantâneo e dos diários virtuais! Ou seja, trocam mensagens apenas ao vivo, quando estão conectadas. Ou publicamente, via blog.

Ai de mim… voltei à dúvida shakespeariana original. Qual é o ser ou não ser da era digital? Teremos que reaprender que o amor é cego, como William nos ensinou em "O Mercador de Veneza"? Ou tudo isso é muito barulho por nada?