Feliz 2014 com a Googlezon

27/12/2004 - Estado de S. Paulo - LINK

Feliz 2014 com a Googlezon

Feliz 2014 com a Googlezon 

 

Marcelo Tas

 

Passar de 2004 para 2005 é pura ilusão! Contar um ano a cada 12 meses é uma onda que começou em 46 a.C. com o imperador roma no Júlio César.
Dois anos depois, ele foi assassinado e recebeu uma homenagem póstuma: o sétimo mês do ano passou a se chamar Julius (o nosso julho).

César Augusto, o sucessor, teve de reformar o calendário. Havia um erro de cálculo no ano bissexto. Nova homenagem: o mês que ele havia nascido passou a se chamar Augustus. E mais, o mês de agosto passou a ter 31 dias, para não ficar atrás de julho do imperador Julius. Com esse dia extra, o prejudicado foi o mês de fevereiro, que passou a ter míseros 28 dias.

Séculos depois, percebeu-se que a confusão do ano bissexto ainda não estava resolvida com precisão. Coube ao papa Gregório, em 1582, decidir a parada. De cara, só os países católicos adotaram a mudança. A Inglaterra só aceitou o novo calendário em 1752. A Rússia, apenas em 1923, em pleno século 20! Talvez por isso, ao contrário dos imperadores Júlio e Augusto, Gregório não virou nome de um dos meses do ano. Mas, graças a ele, o calendário atual é chamado de gregoriano.

Lembro dessa historinha porque até hoje fico encantado em observar como a mágica virada do ano desperta a ansiedade e criatividade humanas.

Aguardo com grande expectativa as inevitáveis previsões para o futuro.

Tenho uma para dividir com vocês. Uma dupla de jornalistas norte-americanos, Robin Sloan e Matt Thompson, resolveu inventar o que vem aí. Fizeram um filminho no modelo dos documentários tradicionais, com aquele vozeirão narrando verdades. O curioso é que a história começa em 1989, com o aparecimento da web; passa por 2004; e segue sem pestanejar até o ano de 2014. Daqui a dez anos!

São oito minutos que valem a pena: www.robinsloan.com/epic. Se você não tem paciência ou conexão com a internet, aqui vai a história dos caras.
Daqui até 2014, organizar é cada vez mais importante do que produzir informação. Ou seja: a imprensa como conhecemos hoje deixa de existir.

No filme, isso é simbolizado pelo fim do The New York Times. Daqui a dez anos, o jornal mais influente do mundo será apenas um folheto impresso em poucas páginas de papel. Direcionado à elite e leitores velhinhos e fiéis ao Times, como eu.

Outro fato do filme: os monopólios perdem terreno para empresas que souberam criar uma ligação afetiva com o consumidor através da internet. Neste caso quem dança é a Microsoft. Ela perde o trono para um novo grupo resultado da fusão do buscador Google com a loja virtual Amazon.

Aliás, esta é a parte mais divertida e assustadora da brincadeira.

Surge a Googlezon, uma empresa que sabe tudo sobre nossas vidas. Das preferências e hábitos nas compras às nossas fontes de notícias. Ou seja, a Googlezon realiza em 2014 aquilo que o livro 1984, de George Orwell, prometia: o Big Brotherque vê, sabe e fatura tudo.

Engraçado: minha intuição é exatamente oposta. Quanto mais informação é jogada na nossa cara, mais serão necessários filtros criativos para entendermos a avalanche de notícias. Para mim, esta é a hora em que pensadores e tradutores do caos valem mais do que um cardápio de links para consumo dos acontecimentos do mundo.

Mas talvez eu é que esteja errado. A notícia que fecha o ano é a venda do apartamento mais caro da história da cidade de Nova York. São três andares, de frente para o Central Park pela bagatela de US$ 44 milhões. Pagos à vista, em cash. O vendedor é a família de banqueiros Rockefeller. O comprador é o megamagnata monopolizador da mídia, Rupert Murdoch, o verdadeiro Big Brother do século 21.

Um único detalhe me deixou aliviado e esperançoso. Apesar do luxo e da abundância de quartos e banheiros, o novo apê do sr. Murdoch não possui uma única mísera vaga de garagem. Pelo jeito, nos novos tempos que se iniciam nem a vida dele em Manhattan vai ser moleza.