A morte irônica do videocassete

15/11/2004 - Estado de S. Paulo - LINK

A morte irônica do videocassete

A morte irônica do videocassete 

 Marcelo Tas

 

Já ouço os sininhos do Natal. E vejo na lista do Papai Noel que o presente mais pedido tem três letras: DVD! A ironia é que queremos enterrar de vez o velho videocassete sem aprender a usá-lo direito. Não soubemos aproveitá-lo na sua virtude mais legal: gravar um programa de televisão enquanto estamos fora de casa, para depois assisti-lo na hora que bem entendermos.Fale a verdade: você aprendeu a programar seu VHS? Aposto um doce-de-côco como até hoje o aparelho está lá, ao lado da TV, com as luzinhas descontroladas, piscando sem parar.


Tenho uma ligação afetiva com o videocassete. Graças a ele, me apaixonei pelas imagens em movimento e encontrei minha vocação. No início da década de 80, com a miniaturização das câmeras e gravadores de videoteipe, surgiu uma nova onda de artistas do audiovisual. Ficamos conhecidos como videomakers. Éramos uma espécie de cobaias e criadores de uma nova linguagem de TV. Só agora essa geração leva para o cinema o seu olhar eletrônico. Aliás, o nome do coletivo de artistas do qual eu participava na época.

Por uma coincidência matemática, a história do armazenamento de informação em suporte eletrônico aconteceu em ciclos de 20 anos. Em 1956, a Ampex vendeu o primeiro VTR: Video Tape Recorder por U$ 50 mil! Era uma geringonça imensa que transformava imagens e sons em impulsos elétricos gravados numa fita magnética.

Em 1976, os engenheiros conseguem enfiar as fitas dentro de caixinhas fáceis de usar: os cassetes. Daí a nova sigla, VCR: Video Cassete Recorder. Surgem vários formatos. O mais popular era o VHS: Video Home System. Como o nome diz, é o vídeo à disposição do usuário doméstico. Fazer imagens não era mais privilégio de emissoras de TV ou cineastas.

Foi o começo deste mundo hiperdocumentado por olhares anônimos e onipresentes de hoje. Finalmente, em 1996, surge o DVD.

A promessa é fascinante: um filme inteiro dentro de um CD. Seria o fim da incompatibilidade de sistemas de cor: NTSC, PAL, Secam… Seria? Surge uma divisão por zonas, novos códigos e incompatibilidades. A indústria, medrosa, tenta controlar a disponibilidade dessa montanha de imagens em alta resolução. Não adianta nada. Os hackers quebram os códigos. Cópias de DVDs piratas invadem as calçadas do mundo. Xiiii… se você quer mesmo pedir um DVD para o Papai Noel, pare de ler por aqui, porque uma nova confusão vem aí. A indústria trabalha a toque de caixa num novo modelo de DVD, supostamente inviolável à pirataria. Que deve forçar em breve os consumidores a trocar seu aparelho!

Enquanto isso, nos EUA, o sucesso da estação é o TiVo: uma mistura de TV por assinatura com videocassete. Muito inteligente, é capaz de gravar 100 horas dos seus programas favoritos. E sem você pedir! Eu pergunto: quem vai inventar um aparelho que crie 100 horas extras do seu dia para você usufruir desse paraíso abundante de imagens?

Olha gente, as mudanças tecnológicas são bem-vindas. Mas, se a gente não aprender a usá-las plenamente, de que adianta essa correria toda?