Por que o Mundo saiu do ar?

08/02/1987 - Jornal do Brasil (Revista de Domingo)

Marcelo Tas

 

 

Por que o Mundo saiu do ar

 Atendendo a pedidos, subo no Palanque para contar, entre outras: o dia em que encontrei Paulo Francis na rodoviária, por que O Mundo no Ar saiu do ar, as fantasias da realidade na TV, onde anda Ernesto Varela... O negócio é o seguinte:

 1. Rodoviária do Rio de Janeiro - interior, noite. Aguardo no balcão do bar quase vazio o último ônibus para São Paulo. (Não que tenha medo de avião ou coisa e tal, era um mês particularmente duro, eu me lembro bem.) Tomo um pingado. O brasileiro ao meu lado, a sua quarta meia-cerveja. Ambos assistimos ao Jornal da Globo. O TV-set está na prateleira de bebidas baratas do botequim imundo-quase-pra-fechar. De repente, quem aparece? O Paulo Francis! (Lógico; o Paulo Francis trabalha no Jornal da Globo. Todo mundo sabe disso.) O brasileiro não tem a menor cara de quem acompanha as novas do Eliakim todas as noites. Mas pelo jeito trata-se de um admirador de Francis. Sorri para as imagens com cumplicidade. Gruda os olhos na TV colorida do botequim imundo quase-pra-fechar. Acompanha atentamente a voz pausada e o olhar paralisante de réptil elegante do cronista risonho e impecavelmente entediado dentro do tubo. O assunto é qualquer: dívida externa, visita de ministro a Nova Iorque... Mas o brasileiro tem um verdadeiro ataque de riso diante do vídeo durante a performance de Francis. Se dobra sobre o balcão imundo, gargalhando e aprontando para o monitor:

 

- Esse cara aí é demais...é muito gozado. Esse Chico Anísio é mesmo um gênio! Cê não acha, meu jovem?

 

2. Sim. Eu acho que a televisão realmente é muito importante para o homem contemporâneo. Quem não quer dentro de sua casa uma televisão do mundo? Todo mundo quer. Magnífica maquineta: vinhetas, artistas, jornalistas, notícias, up-links, satélites, kombis, PKs, GCs, a seguir, no próximo segmento, estamos apresentando, logos, promos, clips, tiques, toques e truques de oito segundos. Realidade e fantasia recheadas de comercias. E onde termina uma e começa a outra? Ah, isso é você quem escolhe, senhor telespectador. Lembra-se quando o Roque Santeiro dava surras de ibope no jornal Nacional? Você escolheu. O prefeito de Asa Branca, para ficar apenas em um exemplo, era muito mais próximo de José, o Sir Ney (como precisamente o sagrou Millôr Fernandes) do que aquele José Sarney que víamos no jornal antes da novela. E, se quiser ir mais adiante, pode ir. Olhe bem nos olhos profundamente tristes de Cid Moreira. Imagine-o no papel daquele coronel-fazendeiro da novela das seis. É possível? Claro que é. Que tal agora a Xuxa de repórter entrevistando o João Sayad a respeito das últimas guinadas da economia nacional, ao vivo, do Oiapoque ao Chuí? Todas as aflições que ziguezagueiam pela reluzente cabeça de nosso ministro não estariam muito mais transparentes no seu vídeo? Claro que sim. E se no lugar de Cid tivéssemos Tarcício Meira apresentando as boas novas do Jornal Nacional todas as noites? Ao final da edição, ele completaria:

 

- Encontro-me com vocês, após os comerciais, no escritório de Renata Vilar. Boa noite e até já.

 

3. Isso foi em novembro, mas até hoje perguntam: por que O Mundo no Ar saiu do ar? Este era um telejornal ficcional, um quadro de humor dentro do programa Aventura, na Rede Manchete. Ao final de cada edição, o telespectador era avisado: "Este programa não tem comprometimento com nenhuma das versões da realidade”.A direção da emissora não levou este aviso a sério. Preferiu levar a sério justamente o programa. Resultado: tirou O Mundo e o Aventura do ar por causa de algo que viu e não gostou. Algo é sempre alguma coisa que a gente não o que é.

 

4. Onde anda o seu repórter Ernesto Varela? Na casa da sua mãe, em Queluz, jogando bilboquê com sua priminha mais nova. O que me possibilita algumas horas de sossego. À vezes, ele me enche o saco.

 

5. E não perca daqui a pouco, dentro do programa Sílvio Santos, o quadro Tudo Por Dinheiro. Como sempre, enquanto isso, o "seu" Sílvio continua na vanguarda da telinha brasileira. Bom domingo.


Marcelo Tas

O autor, 27 anos, é ator e diretor de vídeo da Olhar Eletrônico.