MOSAICO: Subjetividade, Imagem e Conhecimento

21/10/1999 - Editora: Rioa Ambiciosos

MOSAICO: Subjetividade, Imagem e Conhecimento

MOSAICO: Subjetividade, Imagem e Conhecimento


Mesa 5: Imagem, mídia e práticas sociais: o uso do vídeo e a construção da cidadania

 

Mesa 5: Marcelo Tas.

 

Boa tarde, eu me chamo Marcelo Tas, apesar de ter essa carinha de garoto, eu já tenho algum tempo de televisão, aproximadamente 14 anos fazendo TV e estou muito feliz de estar aqui com vocês, porque quem faz televisão vive sempre aquele dilema de se comunicar com muita gente e ao mesmo tempo se comunicar com quase ninguém, quer dizer, de não ter um feedback de não ter uma interação com quem está vendo a gente do outro lado e, principalmente, ter contato com pessoas que pensam as mídias como vocês, com grande sabedoria, inclusive aqui na PUC. Então, eu queria restringir um pouco a minha fala à minha experiência e como a minha experiência toca nessas temas que vocês estão conversando, porque, como eu estava dizendo, apesar de eu ter essa cara de garoto, eu comecei a fazer televisão numa época que, por incrível que pareça, a nossa memória muito cansada, não existia vídeo-cassete, o que é um dado muito chocante para mim hoje, eu acho que (...) muito preocupado com isso. Vocês sabem que era essa da televisão? Anos 50, 40? (risos) É engraçado fazer esse exercício. Vocês sabem quando o vídeo-cassete entrou na casa de vocês?

-Década de 80, década passada, então é uma coisa muito recente. E a coisa mais engraçada é que eu só comecei a fazer televisão, entre outros percausos, o que me levou a etse veículo tão maluco foi justamente no dia em que eu me vi fora de casa, numa situação muito parecida com essa aqui que a gente está agora e estava passando um (...) não era nem um telão, era um televisor mesmo, alguns programas que não eram programas de televisão, aquilo era um escândalo para mim, era uma coisa muito esquisita, eu estar fora da minha casa vendo televisão e, pior ainda, vendo uma coisa que não era televisão. Isso não é televisão? -Não, não é televisão.- É o que? -Isso daí é vídeo. E aí achei isso muito esquisito e percebi que era possível, que tinha algumas pessoas começando a contar histórias usando uma câmara portátil e guardando imagens e...enfim, inventando histórias, colando aquelas imagens e aqueles sons que eles estavam captando ali, naquela hora. E o que mais me fascinou justamente no vídeo foi a manipulação das imagens, quer dizer, você ter o poder de manipular um discurso e criar uma ilusão daquela história que você está captando, ou seja, você capta um assunto qualquer, vai para uma ilha de edição e ali você cria uma outra história que pode não ter nada a ver com aquela história que você acabou de viver ali com a câmara, naquele lugar. Eu adorei a história da manipulação e até hoje é o que mais me fascina na TV, é a capacidade manipuladora, dela criar ilusões e você ter um discurso totalmente artificial, então, justamente o que dá mais medo nas pessoas é o que mais me fascina na televisão, a capacidade dela ser totalmente artificial, para mim ela é totalmente artificial, mesmo o mais preciso dos telejornais, o mais imparcial, o cara mais verdadeiro do mundo é totalmente artificial na televisão.

Bom, alguém de vocês já esteve próximo, já teve contato com uma ilha de edição? Levanta a mão quem já teve contato com uma ilha de edição.

Aliás, ilha de edição já é uma expressão totalmente ultrapassada, que o negócio agora é não-linear, computador, etc. Mas o que quer que seja, uma ilha de edição, um computador não-linear de edição de imagens é esse lugar onde você gruda as imagens e os sons e hoje, cada vez mais, é possível você criar várias camadas de sons, enfim, às vezes até fingir que elas foram colhidas no mesmo momento, então a gente vive o que todo mundo hoje fala, a famosa era da multimídia, da multiplicação dos meios e etc. e que está muito bem colocada aqui dentro dos painéis que vocês estão conversando.

Agora, o que me chama muito a atenção nessa fase que a gente está vivendo agora, é como a gente se sente importante, eu tenho essa sensação de que nós hoje achamos que estamos vivendo numa era extremamente especial, a era das novas tecnologias, das tecnologias de pontae etc. E eu tenho um exercício que eu recomendo para vocês, já que vocês me convidaram para falar e eu estou aqui dando mal conselhos para vocês, que é olhar para história das coisas e ver se essa época é, realmente, tão especial assim, ou seja, será que a gente vive realmente o momento de novíssimas tecnologias? Será que sempre existiu? Será que a gente sempre não teve usando novíssimas tecnologias para fazer as coisas? Hoje, esse é o mote da mídia, todas as manchetes, todo mundo só fala nisso, mas eu tenho a impressão que sempre foi assim, eu tenho certeza, aliás, que sempre foi assim. Então você pega qualquer trabalho, de qualquer comunicador, em qualquer tempo, ele sempre esteve usando alta tecnologia ou tecnologia de ponta. Então, se você pegar um comunicador como Leonardo da Vinci, por exemplo, o cara usou a mais alta tecnologia da época e, inclusive, inventou o helicóptero 500 anos antes do helicóptero ter alguma utilidade para a gente. Se você for um pouco mais para trás e pegar as experiências antes (...) , especialmente naquele (...), tem um período especialmente que eu gosto de estudar que são aqueles 200 anos antes de Cristo, onde vivia toda aquela moçada animada, Platão, Sócrates, etc. Tinha a biblioteca de Alexandria para quem está hoje deslumbrado com a internet, a biblioteca de Alexandria era uma verdadeira internet com milhões de volumes numa época que não existia nem livros. Isso que é incrível, ela já foi a maior biblioteca do mundo numa época que não tinha livros, só aqueles rolinhos. E teve um cara que era, por acaso, (eu vou ficar contando para vocês umas coisas muito esquisitas, mas eu acho que tem algum nexo). Tem uma história muito boa do cara que ajudava na biblioteca de Alexandria, Erastóteles, ele foi o primeiro cara que mediu o tamanho da circunferênciada terra (eu acho isso tão maluco). Eu acho que cada vez mais a gente tem uma, a gente é empurrado para acreditar que hoje a gente vive o instante, mas um cara ter medido o diâmetro da terra com precisão (ele errou por 5%), só com um pedaço de graveto. Esse cara enfiou um pedaço de graveto no chão, ele morava ali em Alexandria, ele cuidava da biblioteca, pegou um cara para andar 400 Km numa outra cidade e enfiou outro graveto no chão, nessa outra cidade, 400 Km, e mediu a sombra do sol. Você anda 400 Km (Km não porque era medido em passos naquela época, sei lá), você vai andar tantos dias, você vai fincar esse graveto e medir a sombra do sol em um determinado momento. Esse cara foi lá e mediu, lá em Alexandria e fez um cálculo com uma regra- de- três e com a inclinação das sombras nesses gravetos o cara mediu a (...), com essa altíssima tecnologia, 200 anos a.C., mediu a circunferência da terra com 5 ou 10 %, no máximo, de erro.

Mas enfim, eu estou falando isso tudo para vender um pouco esse meu entusiasmo com a tecnologia, mas não só com a tecnologia de hoje, mas com a tecnologia eterna, quer dizer, eu acho que a gente tem muita coisa a aprender estudando mais a história da tecnologia, do que tentar ver qual é o último ship que o Bill Gates vai fazer a gente comprar agora no natal, para ficar um pouco mais rico ainda. Então eu acho que hoje a gente “paga um mico”, digamos assim, de viver em uma época em que a gente é forçado muito a viver deslumbrado com a tecnologia ao invés de estar usando melhor a tecnologia.

E aí, eu vou agora para os meus finalmentes para a gente poder ver um vídeo que eu trouxe aqui para vocês, que eu acredito que a gente em um país abençoado em termos de cuidad, vamos dizer assim, com a tecnologia, quer dizer, o Brasil pra mim é um país que por alguma razão as pessoas já nascem alfabetizadas audiovisualmente, a gente tem uma História muito cruel no aspecto do acirramento das diferenças sociais, da miséria, etc., da ditadura militar que colocou esse monte de satélites e botou televisão na casa de todo mundo e por outro lado, o outro lado dessa história da moeda para mim é que o povo brasileiro tem acesso à tecnologia de uma forma bastante intensa, você vai em qualquer cantinho do Brasil você tem um cara que conseguiu pegar a televisão dele de algum jeito, uma bacia...No nordeste tem caras que usam (...) , não sei se vocês conhecem, eles usam essas lâmpadas frias como antena...não sei quem foi que inventou aquilo, eles usam essas lâmpadas cumpridas, eles usam isso e fazem antenas maravilhosas em uma daquelas casinhas. Então o brasileiro tem uma relação com a tecnologia de um certo destemor, quase que uma certa agressividade, eu diria. Pega uma bacia, manda um martelo, enfim, é uma coisa incrível. E você vai em qualquer outro país, eu não sei se vocês já tiveram a oportunidade, eu vivi uns momentos mais (...) eu quase tive um chilique de tanto que eu ri numa loja de departamento na França, de ver os franceses com a tecnologia, eles têm uma relação de temor e respeito e de subserviência. Eu peguei um cara fazendo perguntas de como funciona uma secretária eletrônica, demorou meia hora, eu achei que eles estavam tendo uma briga, direitos do consumidor, e ue ali esperando para pagar.Eu fui entender, a secretária eletrônica na França se chama (...) e eles inclusive têm medo de falar as palavras tecnológicas. Na França, por exemplo, você não pode falar a palavra “digital”, você fala (...), tudo é (...), a secretária é (...). Eles não podem falar “computador”, é “ordenater”, “ordenador” em Portugal também.

Então, eu acho que em vários países, várias culturas, eles têm um respeito, é um temor, eu diria, de tecnologia, enquanto que aqui a gente tem essa nossa “gaiatice” e uma coisa muito interessante que eu acho que é essa alfabetização audiovisual. Bom, isso aí para mim significa o quê? Que ao mesmo tempo que a gente está mais aberto e passível de uma massificação televisível, de você ficar vendo bobagens na televisão, eu acho que é uma forma de você treinar o seu olho, os seus sentidos para o audiovisual de uma maneira que é muito raro acontecer. Isso que acontece no Brasil, em outros lugares do mundo, toda camada social ter acesso a esse tipo de experiência e acho que isso é um poder de transformação sim, e ao contrário do que muita gente prega nos jornais, muita gente entendedor acha, o público de TV no Brasil não vai atrás da baixaria, quer dizer, eu não acho que o brasileiro esteja a fim do baixo nível na televisão, eu acho que hoje ele é um cara mais desconfiado, ele usa mais o controle e ele busca obviamente coisas que se conectem com o mundo que está em volta, por isso que para mim é muito fácil essas críticas como o programa do Ratinho, é uma crítica muito fácil. Falar que são programas só de baixo nível, eu acho que são programas que têm (...) isso talvez pode ser uma coisa que a gente pode conversar depois, se interessar a vocês, que carregam algumas fagulhas de comunicação direta com essa audiência, que deveriam ser mais aprofundadas, que carregam algumas doses de sinceridade, que a televisão padronizada, onde tudo é certinho, onde tudo é bonitinho, desmerece, acha que o certo é fazer aquele negócio todo bonitinho, ilustradinho e tudo mais. Eu acho que é uma inteligência do público brasileiro perceber esse tipo de coisa.

Tem um outro testemunho que eu queria deixar para vocês da experiência que eu tive na TV Cultura. Na Cultura, atualmente, eu apresento um programa chamado Vitrine, nas 4as. Feiras, mas eu tive nesses últimos anos uma experiência com programas infantis...

Programas infantis, o "Rá-tim-bum" e o "Castelo Rá-tim-bum", e que foram programas muito... e que hoje é fácil gostar daqueles programas, são programas de muito sucesso etc. e tal, mas foram programas muito criticados, bombardeados quando foram lançados, então esses programas revelam o quanto o espectador está sedento de conteúdo mesmo, está sedento de complexidade, de coisas visuais atraentes, p/ vocês terem uma idéia, o "Rá-tim-bum" é um projeto de 1989, que estreou em 1990, e ele estreou numa época, em que a televisão matinal, as manhãs na televisão eram totalmente dominadas pela XUXA, quer dizer, ela tinha audiência maçiça, e depois dela vinham "as outras Xuxas", as outras louras, umas morenas, outras ruivas, enfim vieram várias outras, mas com aquele mesmo modelo, e quando o Programa do "Rá-tim-bum" estreou, nós conseguimos em 03 meses, empatar em audiência com Xuxa, no IBOPE mesmo, e que foi um feito extraordinário na época, etc. e tal, e que foi enfim uma marca que não saiu da tv, até hoje, 09 anos depois, o "rá-tim-bum" é reprisado, tem vários prêmios internacionais, etc. e tal, e prá mim é um marco de como que um programa totalmente "esquisitão", não sei se vocês têm idade para assistir ao "Rá-tim-bum", provavelmente sim, né (risos) é triste esta constatação, mas é verdade, e o "Rá-tim-bum" é um Programa que não tem apresentador que é uma coisa esquisitíssima, é um programa que não tem assim ... o "Castelo Rá-tim-bum" é um programa que tem um apresentador, tem um castelo, tem ..., tem não sei quem, tem a cobra, o Rá-tim-bum é um programa que é uma colagem de uma série de esquetes, de quadros, de drops, de coisas que entram e saem, e tudo o mais, é um programa não-linear, se a gente quiser usar uma palavra da moda, um programa totalmente não linear, meio internet, você vai clicando e mudando de assunto, e um programa desse gênero, há 09 anos atrás conseguiu este tipo de resposta do público então para mim é uma satisfação poder constatar que este é o tipo de programa que o público brasileiro vai atrás, quer dizer, ao contrário da acreditar naquela "lenga-lenga" de que você tem que botar todo dia um homem atropelado, um homem esfaqueado, um "anão de pijama", comendo um cenoura, sei lá, uma coisa assim para atrair a audiência, quer dizer, eu sou daqueles que acha que o público quer conteúdo na TV, e que na verdade ele às vezes fica distraído um pouco com algumas maluquices, como a gente fica distraído quando vê um cara atropelado no meio da rua, todos nós aqui damos audiência àquela situação que é o nosso desconhecimento do que vai acontecer com a gente depois que a gente morre também, acho que tem isso que é um fenômeno a ser analisado e tem uma outra coisa que é você conseguir uma impressão, uma comunicação de longa duração com a audiência da televisão, que vai para mim, o papo é muito diferente do que só fazer sensacionalismo.

Muito bem, para eu poder parar de falar, (eu faço muito), vou mostrar para vocês um vídeo que ainda é inédito no Brasil, e que vai continuar inédito durante um tempo, que é uma experiência que fiz com algumas pessoas, e um "piloto", que no sargão da televisão, é um "programa teste", que a gente fez, e que ainda permanece inédito, mas que tem tudo a ver, é incrível gente, as coincidências né, tem tudo a ver com o que vocês falam, o que está proposto nesta mesa de hoje, que é a tecnologia intermediando as relações humanas, se é possível construir uma nova forma de relacionamento, apropriação e transformação da linguagem visual, eu achei que tem tudo haver. É um piloto que a gente fez para TV Globo que é justamente isso, falando da mídia, ao invés de falar da televisão falando da relação que as pessoas tem com a televisão, com a mídia e a televisão e com os aparelhos que a televisão usa para fazer os seus programas. O tema desse primeiro programa é o telepromter, Então vocês vão ficar sabendo o que é agora um telepronpter, tem 9 minutos e é isso aí, depois a gente continua então.

É o programa se chama "Fora do ar", um nome bastante profético inclusive porque o programa continua fora do ar.