Tas faz 'retrospectiva do ano' com notícias de 1958

28/12/1988 - Folha de S. Paulo

Tas faz 'retrospectiva do ano' com notícias de 1958

Tas faz "retrospectiva do ano" com notícias de 1958


Mario Cesar Carvalho

Da Reportagem Local


Leonel Brizola, Jânio Quadros e Ulysses Guimarães são os candidatos à presidência no próximo ano. Brasil corre risco de hiperinflação. Queimadas destroem parte da floresta Amazônica. Reinaugurado o teatro municipal de São Paulo. Mais uma retrospectiva de 88? Necas. Todos as notícias acima fazem parte de mais um ano em revista -só que de fatos passados entre 1958 e 1960. A extravagância faz parte do programa "Retrospectiva do Ano", que será apresentado hoje às 21h30 na Record. O roteiro e direção são de Marcelo tas, criador do repórter Ernesto Varela e de Bob Mack Jack.

 

Retrospectiva de fim de ano é tão inevitável quanto o peru de Natal, o "jingle bell" e a ressaca pós-Reveillon. Nada de importante acontece na época, o orçamento de dezembro é direcionado para a produção de "especiais", as emissoras têm de ficar no ar e acabam enchendo linguiça.

 

Como? Selecionando notícias veiculadas durante o ano, de forma mais ou menos arbitrária, e batizando-os de "retrospectiva”. O custo é baixíssimo, já que as imagens das retrospectivas já foram pagas à época de sua veiculação original.

 

Tas radicalicou a arbitrariedade: programou a máquina do tempo para trinta anos atrás. Resultado: encontrou um país curiosamente parecido com o de hoje. Não só pela tríade mais cotada para concorrer à Presidência em 1959. A "saia justa"de 1958, como diz o apresentador Cezar Monteiro, foi o desembarque no aeroporto de um galeão de um "entendente"do Fundo Monetário Internacional (FMI). Vinha cobrar a dívida externa.


Absurdo Realçado


"Retrospectiva do Ano" é um programa de humor não só por realçar as coincidências de 1958 com a atualidade, dando a impressão que o país patina sobre eternas questões insolúveis. A Record queria um programa de peso para fechar o ano em que comemora seu 35º aniversário. Tas propôs um formato engraçado: a volta ao passado, quando a Record disputava a primazia de maior emissora nacional com a Tupi. Mais ainda: mesclou alguns fatos reais com locuções deslavadamente falsas. O jogo de verdades e mentiras realça o país absurdo.

 

Para produzir o programa, Tas pesquisou cinco mil reportagens, de cinco minutos cada, gravadas ou comprada pela Record entre 1958 e 1960. A partir desse material criou um roteiro em que agrupa assuntos de forma semelhante às retrospectivas: política, economia, comportamento, ciência, espetáculos etc.

 

Em todas as cenas há uma espécie de comentário musical, quase sempre irônico, com sucessos da época selecionados por Paulo Tatit e Hélio Zuskind, do grupo Rumo. Enquanto a floresta Amazônica é queimada, toca-se um trecho de "Garota de Ipanema" -"Ah, a beleza que existe/ Ah, como tudo é tão triste".


Pré-história da TV


Tas preservou o linguajar da época no texto que apresenta ou comenta as imagens. Retrospectiva é "resenha ilustrada". rock é o "ritmo crazy", jovens rebeldes são chamados de "juventude nacional transviada". De quebra, "Retrospectiva do Ano" mostra um flagrante da pré-história da TV brasileira: os repórteres são cerimoniosos, formais quanto comparados aos de hoje, falam num linguajar empolgado. As pesadas câmeras de cinema ficam paradas, não haviam ainda o recurso do "zoom", mas há planos típicos de virtuose. Explica-se: muitos dos operadores de câmera da época tinham feito escola no cinema.

 

Há desde imagens históricas quanto cenas que um historiador mais sisudo classificaria de banais. Filiadas ao primeiro caso, pode-se ver Jânio Quadros em campanha; a subida ao espaço do "macaquinho astronauta" Sam Myke" o "pioneiro sideral"; Richard Nixon, vice-presidente dos EUA em 1958, sofrendo um atentado a pedradas; o rebelde Fidel Castro comemorando o aniversário na clandestinidade, na praia de Paraderos etc.

 

Entre as mais "descontraídas", vê-se a inauguração da primeira escada rolante de São Paulo; um baile de debutantes embalado por "Mona Lisa" de Nat King Cole; Bill Halley chegando a São Paulo; e algumas das "nádegas famosas" que deixaram marcas no sofá de Juscelino Kubitschek -Marlene Dietrich e Luciano Pavarotti.


Um dos momento mais hilários do programa é um pronunciamento "fake" do ministro da Fazenda em 1958, Lucas Lopes. No meio da rua, um garoto-propaganda que faz as vezes do ministro propõe um "plano se salvação nacional, o pacto social": "O pacto não morde, só depende de você, sim, de você mesmo, de você aí em cima", diz apontando para o alto de um prédio. Xô 58.

 

Retrospectiva do Ano. Hoje, às 21h30, na Record. Roteiro e direção: Marcelo Tas. Criação: Marcelo Tas, Cecília Homem de Mello, Paulo Morelli, Tonico Melo e Maria Luiza Mendonça. Sonoplastia: Paulo Tatit e Hélio Zuskind. Vinhetas: Guto Lacaz. Apresentação: Cezar Monteiro e Cecília Homem de Mello.