Cultura produz infantil padrão Primeiro mundo

11/02/1990 - Folha de S. Paulo

Cultura produz infantil padrão Primeiro mundo

Cultura produz infantil padrão Primeiro mundo

Angela Marsiaj

Da Reportagem Local


Por mais ambiciosos que sejam, poucos programas da TV brasileira se igualam ao padrão de produção dos bons momentos da Rede Globo. Mas com a verba da iniciativa privada de US$ 1,3 milhão -suficiente para realizar dois longas-metragens nacionais e mais um pouco- a TV Cultura conseguiu produzir uma série padrão Primeiro Mundo de 190 programas para pré-escolares.

 

Os números são impressionantes -82 cenários, 800 figurinos, 450 profissionais envolvidos. O resultado foi um programa multicolorido, que se utiliza de atores, bonecos, desenho animado, composições originais, cenários exuberantes e externas. Extremamente ágil, "Rá-Tim-Bum" teve como fontes de inspiração os norte-americanos "Vila Sésamo" (este, apresentado no Brasil na década de 70) e o recente "Pee Wee Herman".

 

Nem tudo, no entanto, é perfeito. E "Rá-Tim-Bum" -no afã de competir com programas como o da Xuxa e até comerciais- acaba abusando do caráter fragmentário da TV. É uma quantidade vertiginosa de quadros, gente falando, música tocando, sem muito fio para se seguir. Mesmo as histórias sequenciais são apresentadas de longe em longe e ficam um pouco perdidas.


O objetivo de "Rá-Tim-Bum" foi o de trabalhar com as noções básicas de raciocínio lógico, percepção visual, auditiva, lateralidade e higiene, entre outras. Não cabe aqui discutir a eficácia da TV como complimento à educação. É óbvio que dadas as circunstâncias brasileiras, coisa do tipo só somam. Mas é muito mais difícil divertir e chamar atenção quando se tem um objetivo pedagógico por trás. Criança que só brinca com brinquedo pedagógico se enche.


Na maioria de suas cenas, "Rá-Tim-Bum" conseguiu contornar com sucesso a dificuldade de ensinar sem chatear. O problema é quando força a barra para tentar passar alguns conceitos ou até comete erros e faz confusões.


O professor Tibúrcio (Marcelo Tas) diz que uma forma geométrica é um quadrado quando o que aparece no vídeo é um retângulo quase quadrado. O número 3, que num desenho animado seria relacionado a três bolas sobre uma mesa, só é escrito na tela quando uma delas cai na cabeça de uma gato. Para quem não conhece o "3", poderia significar "bola", "queda" ou "gato".


Os melhores momentos são os que mostram crianças. Há uma seção que convida a criança a imitar um animal. Funciona. É difícil que algum não imite, por exemplo, um peixe, após ver uma sucessão de peixes -e crianças imitando-os. Uma das melhores cenas produzidas foi uma que tenta convencer as crianças das vantagens do banho. Um bando de meninos vai aos chuveiros coletivos e se lava enquanto um tio debochado com mulheres de gordura falsa canta "Sujeira dá coceira, cheiro ruim, bodum, chulé". E em tom de jingle, completa: "Experimente a refrescante sensação de bem-estar/Tome um banhinho já". Também valem a pena os bonecos: um apresentador de notícias com cabelo de Ronald Regan, um a cobra colorida.


Mas nem só de graça vive o programa. Há quadros até chatos. A esfinge perguntadora -que tem uma perfeição de cenário/figurino- cobra demais a crianças, marca com um relógio o tempo da resposta e só falta devorar. As cenas do detetive Máscara (Paulo Contier), que parodiam os filmes "noir", ficam com falas excessivamente "fakes". Numa vinheta, uma voz autoritária quase ordena que uma criança se sente para prestar atenção a uma história. E curiosamente, os professores apresentados no programa são aloprados.


Rá-Tim-Bum - Programa educativo para crianças em fase de pré-escolar da TV Cultura, com apoio de Fiesp, Ciesp e Cesi. De segunda a sexta, às 9h, 15h e 19h. Direção-geral: Fernando Meirelles. Coordenação de textos: Flávio Del Carlo. Direção musical: Edu Lobo. Com Carlos Moreno, Lara Jamra, Marcelo Tas, entre outros.